amanhã não venho.
eu poderia escrever o roteiro de um filme
em cima dessa fala.
mas eu escrevo nada.
as pessoas pensam que escrevem.
mas escrevem nada.
não há nada para ser dito
em lugar algum.
há palavras que precisam sobreviver.
só isso.
há as folhas brancas,
mais inúteis que nunca,
agora que o cristal líquido e os pixels
desenham o pensamento.
mas não há nada para se escrever.
nenhum filme para ser rodado.
amanhã não venho.
vou fazer um filme.
amanhã não venho.
vou enlouquecer.
amanhã não vem.
a noite de hoje é a última.
vou fazer um filme trágico
cujo título vocês já sabem:
amanhã não venho.
quero fazer um drama,
maior que otelo,
mais otário,
maior que um amuleto
que atrai a morte.
quero tomar um chá e espirrar
até que sangre o meu nariz.
quero escrever tudo que ela goste.
quero só escrever coisas que ela goste.
que ela goze.
que ela não possa mais viver
sem o que eu escrevo.
vou escrever o roteiro desse filme.
eu sei fazer isso.
eu vou aprender.
ela me chama de Clarice.
não. ela não me chama de clarice.
diz que eu sou Clarice Dela.
sou a cadeladela.
ela é a minha cidadela de fogo.
meu inferno quentinho.
o inferno é apenas uma fogueira de são joão
onde se assam milhos.
ninguém nunca soube disso.
esse fato vai estar no filme.
vou mostrar o que é o inferno.
e vou dizer: ela me faz viver
e vou colocar todo o peso do meu filme
em suas asas de prata, cidade dos anjos.
vou viver e vou voar para perto dela que voa.
eu sou a cega na porta do edifício
que recolhe a moeda que ela joga
quando passa no salto.
eu sou a cega, amiga do porteiro,
que recolhe a moeda que ela joga
sem que se ouça seus passos de tênis.
eu sou a cega a caminhar com ela.
atravesso em segurança as ruas
sugando com as narinas
o perfume de seus cabelos.
hoje eu quero exagerar
e escrever um roteiro.
as cenas estão todas aqui escritas.
mas ninguém vê. eu vejo.
eu sou a que vê quando ela joga a moeda
para a mulher cega na calçada.
eu sou a moeda.
meu rosto está na moeda.
eu sou a água da poça que lava os pombos.
eu estou na vida como uma música está no mundo.
estou para o que der e vier.
ela chega ao amanhecer.
só conhece madrugadas.
seu dia inteiro é uma madrugada.
em cemitérios felizes espalha seu sorriso
e suas covinhas de brinquedo.
claro. como é tão claro esse filme.
só os mortos são felizes.
ou os que ainda não nasceram.
por isso há tanta paz nesses lugares.
aquele silêncio bonito e rosas murchas.
:: july | tasos chonias, 2014 ::





