quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

acordes



















permanece dormindo
amor

a forma sob a qual
te tenho
é tão igual
que acordado
causas rebuliço
e ninguém mais

dorme
amor

continua preso
e entorpecido:
morfina, morfeus
todo o necessário

porque se acordas
ensandecido

precisado
de ligações noturnas, diuturnas
constantes

de insanas
fantasias
a todo instante

que será dos sinais
do tráfego?

que será do que não pode
ser feito
e faço?

então, dorme
liberdade, amor
seja qual for
teu nome, dorme.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

blood money















teu trono falso
- papelão e plástico -
tua coroa fosca
- de lata e de chumbo -
não te tiram a graça,
pois teu posto é esse
número um da farsa.

mas teu serviço é triste
pura histrionice
bufando inveja
e destilando nítrico.

cumpre teu mandato:
manda à forca o forte
assa os hereges
antecipa-te a brutus.
poder inútil.

o medo é teu seguro
porém não é segredo
os que te cercam sabem
que a maldade é dura
mas não dura um eterno

e teus dias de ódio
de abuso e morte
também estão contados.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sinceros votos



















durante o ano inteiro
alimentou o silo
com ódio, milho e mel
e regou com botelhas 
de raiva
até fermentar.

durante o ano inteiro
viveu dessa ração
cinzenta
e quis que morresse aquele
e empesteasse aquela
e sequelasse aqueloutro.

durante o ano todo
cavou fossas e poços
que camuflou com risos
e abraços magros
esperando a queda.

durante o ano
rogou pragas,  levantou falsos
desejou fortíssimo que fosse
tudo impróspero
e que minguasse a água, o pão,
a palavra e o ócio.

agora, duro e inteiro
traz presente secreto
e convite para a ceia,

alardeia a paz
e escreve no cartão
o quanto amor é sério.

poupe-me do seu do natal
invero.

e para o que não vestiu
esse capuz de trevas
um feliz natal e um ano novo
às veras.

domingo, 23 de dezembro de 2012

riso



















parece que te enviaram
ultrassom do inferno
retrato do instagram
e eu
a fome do mistério
instalado no pleistoceno
revi-te, revide, bem-te-vi.

se os pássaros cantaram
e minha inocência válida
plácida e transtornada
ouviram, ouviram
que faço?

te desço do sono
pesado, sofrendo
como quem carrega
o bandido disfarçado
nas costas.

e em meio a dor
estagnada
aceito teu beijo
miséria
teu nome na mesa
farta.

que me entendam
somente os poetas
aqueles que não procuram

sentido nem rima ou cura
que me entendam
ninguém

e mesmo assim
satisfiz-me.
{sem crase nem nada}
 

gargalhada

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como um índio rindo
ou uma hiena morta
feito um riso vindo
de garganta flácida
tal qual tiro falho
a sair da culatra
ouvi meu próprio riso
espalhar-se tinto
pela sala branca.

domingo, 16 de dezembro de 2012

μονόκερος



















o passado
montado em um cavalo
alado
unicórnio.

morro-me
em círculo,
minha morte mordendo
o infinito.

tão longe e perto
insisto-me,
mastigo as pontas dos dedos
enquanto dirijo
um verso
cancelado.

a partitura a ir-me
para o inacabado
e o sem sentido
amor
que my love.
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

omissões

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
a dizes tua dona. odeio-a.
mas a ti, mais,
pelo que de gozo transmites
ao descreveres o zunido do fio.

pior! omites  – por saberes que os imagino
e assim, nitidamente, ouço  –
os gemidos. 

dizes-me
com os dentes no cio
que tua dona é ela:
que és o cão, o olhar da subserviência,
alegria de dor, amor de permitir...
(tudo aquilo que não entendo).

te desprezo, mas mais a mim,
pelo que de inveja e impotência omito
ao responder tua confissão
com um sorriso.