o passado
domingo, 16 de dezembro de 2012
μονόκερος
o passado
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
omissões
pior! omites – por saberes que os imagino
e assim, nitidamente, ouço –
os gemidos.
alegria de dor, amor de permitir...
ao responder tua confissão
com um sorriso.
domingo, 14 de outubro de 2012
fenice
Terça, quarta, quinta, quanta
alma trazemos na inconstância!
E renascemos no sopro que a-
viva a brasa
quando mais nos percebíamos
hirtos. Mesmo passivos,
atravessando apáticos os dias
lindos, o destino - ou o nome
que atribuímos ao vindo-
ouro - nos escolta para o novo
navio e partimos
como se sequer tivéssemos ido.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
festa da luz e sombra
[para BT.]
num ápice
cruza os ares o búfalo
asas gigantescas
e voando com ele
vão as sombras das árvores
do vale.
quem o viu se libertar
da frágil amarra
pôde vê-lo pela pista
verdazulada: toneladas
de sonho a galope.
descoberto pelo homem
o bicho é dócil
como se ignorasse
a morte
na simetria afiadíssima
dos cornos.
criança levada que fugiu
dos cuidados de um tio
cujos olhos foram capazes
de achá-lo, domesticado.
o mimetismo do seu torso
paralisado se fundia
às plantas e ao tudo
invisível menos à retina
acostumada desse outro:
seu-tio-filho-ele-mesmo-ontem.
nessas paragens
o traçado ocidental
perde os sentidos
se desgoverna, des-
falece, é o leito de um rio
seco. o ordenamento
não é o mesmo aqui
uncle boonmee, nem
mesmo lembramos
que somos hoje.
não consideramos o espírito
das flores e escondemos
as dores
no mais distante possível.
ainda sei me transportar
invocando geografia
e amando nomes: laos, mekong,
duras, por mim, por você, velha
poesia de gullar.
boonmee. pequenas mariposas
e fantasmas, camaradas.
:: por você por mim | ferreira gullar, 1968 ::
:: sobre "o vice-cônsul" de marguerite duras ::
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
tsc
nunca tinha sonhado
com você, ontem
sonhei.
acordei em outro mundo
com a imagem do beijo mais simples
e doce que nunca houve
mesmo em sonho meu
nem de ninguém.
conto ou não conto
que sonhei?
a manhã foi gasta resolvendo isso.
e resolvi. não conto.
pra quê?
você nem mesmo sabe que é você...
ps. se souber, me avise.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
ouvindo "a arte da fuga"
kontra can’t & descartes... a favor de tudo e do miúdo, querendo a quinquilharia de de barros, manuel! lendo e pensando em {toujour} [tu, ju :) – porque cogito que entendes & mentendes]
... como pode ocorrer que o homem pense o que ele não pensa, habite o que lhe escapa sob a forma de uma ocupação muda, anime, por uma espécie de movimento rijo, essa figura dele mesmo que se lhe apresenta sob a forma de uma exterioridade obstinada? Como pode o homem ser essa vida cuja rede, cujas pulsações, cuja força encoberta transbordam indefinidamente a experiência que dela lhe é imediatamente dada? Como pode ele ser esse trabalho, cujas exigências e cujas leis se lhe impõem como um rigor estranho? Como pode ele ser o sujeito de uma linguagem que, desde milênios, se formou sem ele, cujo sistema lhe escapa, cujo sentido dorme um sono quase invencível nas palavras que, por um instante ele faz cintilar por seu discurso, e no interior da qual ele é, desde o início, obrigado a alojar sua fala e seu pensamento, como se estes nada mais fizessem senão animar por algum tempo um segmento nessa trama de possibilidades inumeráveis? – Quádruplo deslocamento em relação à questão kantiana, pois que se trata não mais da verdade, mas do ser; não mais da natureza, mas do homem; não mais da possibilidade de um conhecimento, mas daquela de um desconhecimento primeiro; não mais do caráter não-fundado das teorias filosóficas em face da ciência, mas da retomada, numa consciência filosófica clara, de todo esse domínio de experiências não-fundadas em que o homem não se reconhece. [445-6]
... posso eu dizer, com efeito, que sou essa linguagem que falo e na qual meu pensamento desliza a ponto de nela encontrar o sistema de toda as suas possibilidades próprias, mas que, no entanto, só existe sob o peso de sedimentações que ele jamais será capaz de atualizar inteiramente? Posso eu dizer que sou este trabalho que faço com minhas mãos, mas que me escapa não somente quando o concluo, mas antes mesmo de o haver encetado? Posso eu dizer que sou essa vida que sinto no fundo de mim, mas que me envolve tanto pelo tempo formidável que ela impulsiona consigo e que me eleva por um instante sobre sua crista, quanto pelo tempo iminente que me prescreve minha morte? Posso dizer tanto que sou quanto que não sou tudo isso; o cogito não conduz a uma afirmação de ser, mas abre justamente para toda uma série de interrogações em que o ser está em questão: que é preciso eu ser, eu que penso e que sou meu pensamento, para que eu seja o que não penso, para que meu pensamento seja o que não sou? Que é, pois, esse ser que cintila e, por assim dizer, tremeluz na abertura do cogito, mas não é dado soberanamente nele e por ele? Qual é, pois, a relação e a difícil interdependência entre o ser e o pensamento? Que é o ser do homem, e como pode ocorrer que esse ser, que se poderia tão facilmente caracterizar pelo fato de que “ele tem pensamento” e que talvez seja o único a possuí-lo, tenha uma relação indelével e fundamental com o impensado {etc e saudade. sempre} [447-8]
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 8.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
a última giulietta
ninguém que eu conheça
mais que tu
ama trocadilhos assim
na missa
no engenho
na casa grande
no bueiro
na asa de um pterodátilo.
ninguém mais ama tanto
trocadilhos assim
como se fossem palíndromos:
irmãos gêmeos andando aflitos:
as roupas domingueiras pelo avesso.
és tão ancestral em mim
assim
como uma miss feita de papas
como uma cisma feita de mágoas.
uma única ceia magra
antes do cadafalso.
uma única cena
onde tuas penas
em revogadas
surtissem nenhum efeito
surtassem por sobre a água
feito pássaros
antes da temporada de caça
antes da ferroada que cada um
se aplica: quem depois do escuro
se lembra? só um nome de bar em recife.
depois do escuro.
depois do muro
depois das palavras que se dobram sobre si
como uma onda de asfalto.
não. não cremos em nós.
mentimos alto
e nossa última esperança
é que continuemos a mentir
que cada nosso passo
nos leve mais. nos leve.
nos enleveça. faça de nós
cada passo um centímetro a menos
nessa distância intransc
orrível.
:: noites de cabiria, giulietta masina | federico fellini, 1957 ::





