pior! omites – por saberes que os imagino
e assim, nitidamente, ouço –
os gemidos.
alegria de dor, amor de permitir...
ao responder tua confissão
com um sorriso.
nunca tinha sonhado
com você, ontem
sonhei.
acordei em outro mundo
com a imagem do beijo mais simples
e doce que nunca houve
mesmo em sonho meu
nem de ninguém.
conto ou não conto
que sonhei?
a manhã foi gasta resolvendo isso.
e resolvi. não conto.
pra quê?
você nem mesmo sabe que é você...
ps. se souber, me avise.
ninguém que eu conheça
mais que tu
ama trocadilhos assim
na missa
no engenho
na casa grande
no bueiro
na asa de um pterodátilo.
ninguém mais ama tanto
trocadilhos assim
como se fossem palíndromos:
irmãos gêmeos andando aflitos:
as roupas domingueiras pelo avesso.
és tão ancestral em mim
assim
como uma miss feita de papas
como uma cisma feita de mágoas.
uma única ceia magra
antes do cadafalso.
uma única cena
onde tuas penas
em revogadas
surtissem nenhum efeito
surtassem por sobre a água
feito pássaros
antes da temporada de caça
antes da ferroada que cada um
se aplica: quem depois do escuro
se lembra? só um nome de bar em recife.
depois do escuro.
depois do muro
depois das palavras que se dobram sobre si
como uma onda de asfalto.
não. não cremos em nós.
mentimos alto
e nossa última esperança
é que continuemos a mentir
que cada nosso passo
nos leve mais. nos leve.
nos enleveça. faça de nós
cada passo um centímetro a menos
nessa distância intransc
orrível.
:: noites de cabiria, giulietta masina | federico fellini, 1957 ::
eu queria estar em algum canto onde tu pudesses também estar
então desvirtuei, o quanto outro pode desvirtuar, teu caminho
e tentei enviesar tua linha de fuga na direção da minha clausura
sem limites, e para entender como vivo em um espaço mínimo
e infinito é preciso, ao mesmo tempo, ser e deixar-se.
eu, hoje, já não sei se existes ou se quem aí está
se chama luzes, se apagadas, se azuis, se há motores
ainda que nos levem pelo campo das paisagens e das árvores
pois que a vida se assustou quando cheguei e ainda gritamos.
sem espelho, olhando o lodo, o ponto que queima entre as sobrancelhas
meu corpo se arqueia para suspirar, e gemo: o arrepio
trêmulo dos lábios não basta à boca, não soma ao ruído escancarado
do mundo. estática, me resumo e me expando, de tal forma
que, se pudesse, humano, me olhar diria: “exangue e alastrada”,
e de mim afastaria seu cheiro mortal e suportável.
mas não pode me olhar humano nenhum. porque o que sou
rasga a retina desacostumada de quem existe apenas para.
mais é preciso para me ver em fraldas, em sedas, em sonhos:
é necessário se drogar com água do mar e injetar o sumo
de um milhão de estrelas na veia.
justa na medida do álcool, livre como um plágio
canalha, bizarra ,antes que a meia-noite desça sobre o campanário
desacato meio mundo, e espero que depois da explosão
gigante que aguardo, todas as palavras morram
e renasçam, mais brilhantes que nunca, crispadas,
como nossos olhares nunca dantes navegados,
e anunciem um desejo rarefeito, não porque invisível,
intocável, mas porque seus destinos e resultados serão
tão tão tão tão extraordinários.
[se amas tanto tanto tanto o que é dito
se amas tanto tudo que é dito como eu amo
então tudo está perfeito e entendes o gesto
a letra e o leito que não nos foi dado porque seria
excesso, seria até errado ultrapassar a perfeição].