quantas pontes esperas que eu atravesse
destas dúbias de sentidos que constróis
sem que eu me parta ao meio sobre o abismo?
quantas vezes dirás o que quero não ouvir
e o que quero de maneira que eu não saiba
jamais o que foi dito?
quantos acordes o vento haverá ainda
de tocar nas cordas tensas dessa incerteza
que estendes entre o que sentes e o que negas?
quantos encontros esperas que eu desdobre
refazendo as esquinas estreitas
sem que minhas asas cansadas se quebrem?
quantas entregas pretendes que eu faça
da minha presença explícita na prata
do teu espelho faminto?
quantos nomes darás ao infinito momento
em que me pensas diária navegando
em teus silêncios?
sábado, 6 de março de 2010
quantum
quinta-feira, 4 de março de 2010
little
eu sei que só dura um tempo
até para os grandes
imagine pros pequenos
menores como eu
artistas se esgotam
suas almas rotas desgostam
dos versos, melodias,
todos os beijos se tornam frios
todas as mãos hirtas descansam
ao lado dos corpos, dos copos
e a voz é só um remorso
da canção.
eu sei que só dura um tempo
mesmo os mais talentos-
os maiores que compõem
que criam o que se pode
sem errar dizer poesia
um dia insípidos rabiscam
o que já foi tão dito
o que ninguém mais escuta:
a inspiração é tão curta
que não cobre a dor
não veste a ilusão
não esboça alegria.
eu sei que só dura um tempo.
parece insuficiente a palavra
melhor deixá-la na mão do vento.
mas se é preciso calar, por que falo?
se é preciso dormir, por que ardo?
se já não vale um centavo o que eu penso.
de medíocre, de igual
nunca passo, mas um compasso
ainda insiste em rodar
como se o coração, golpe em falso
pulsasse contra o que é música
traísse as notas, rebentasse as comportas
do texto ordinário e rondasse as valas
os cenários, quartos, varandas,
extorquindo sentimento
de quem não tem mais nada por dentro.
:: all gizah pyramids ::
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
mais um menos um
faz sentido pensar que 0 é o futuro e -1, o presente? faz sentido associar -12 ao presente e menos onze ao passado? faz sentido inverter os inteiros e crescer, crescer mesmo, para trás? faz sentido dizer que tudo começa em 13, que doze é o passado e o futuro estanca em 14? faz sentido o tempo ser número? faz sentido o espaço ser número negativo? espaço racional. tempo racional. partidos. aqui são exatamente 15:04:26 etc. -07° 13' 50'' 35° 52' 52'' etc. sentido. fazer sentido. se o futuro é negativo e o presente e o passado vêm antes do futuro, também são negativos. vida serial. morte serial. como pensar positivamente o negativo? como pensar nulo o negativo? pensar. fazer sentido. não. não faz. xaráp.
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar
:: chico buarque, por maria bethânia ::
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
descartáveis
DESCARTÁVEL I
Farei um poema curto
de uso fácil, instantâneo
um verso desidratado
comum, assalariado
um pouco salgado
um pouco amargo e algo,
tanto assim, seco.
Poema sem exagero
de verbo azul desbotado
de metro livre caseiro,
quem sabe um poema inteiro
moderno e descartável.
DESCARTÁVEL II
Farei um poema leve
sem couro, carne, nem osso
feito um boneco de neve
faltando os pés e o pescoço
correndo o grande perigo
que cada verso derreta
escorra antes do almoço.
Farei um poema frio
gelado, batendo os dentes
mas que não chega a sorvete,
parece com picolé. Poema
que se se chupa
é pura tinta e açúcar
e água suja o poema.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
vigília
Cabem meus olhos fechados
além de todo meu corpo
na antessala do sono
Minha cabeça é um barco
sempre indiferente ao porto.
Corto a memória em pedaços
aqui e acolá, um morto
envolto em névoa de outono
Meu coração é um arco
de ventre empenado e torto.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
um oito zero
cento e oitenta graus
girei o corpo
a vida girou junto
no lado oposto
o mesmo espetáculo
esplendor da relva
tomates verdes fritos
cria cuervos
um criador de camarões
um obscuro objeto do desejo
um café no deserto calling you.
mais alguns graus à esquerda
o corpo girou
e girei a vida junto
nesse espaço de encontro
“te vi, no sé si eras un angel o un rubi y”
apenas o céu olhou pra trás
quando perdi a trilha.
agora é hora do desafogo
da liberdade me afogar de novo
de esculpir uns sonhos
onde não posso desenhar você
porque seria o cúmulo.
:: torus | jotero, 2007 ::
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
dois oito sete
duzentos e oitenta e sete anos
foi o tempo de espera!
e a noite do encontro,
fechada para reformas:
mas aconteceu:
entre escombros e tropeços
meu corpo não lhe disse nada
meus olhos estancados pelo amor
não lhe disseram nada
minhas mãos salgadas não fizeram nada
nadei até o fim da fachada
onde estavam escritos nossos nomes
e notei que estavam trocados
que embora os signos estivessem corretos
não me chamava. somente o meu pequeno fogo
estava aceso na praia: vela que o vento permitiu
se extinguir sem choro.
nunca nunca nunca
me senti mais perdida e achada
porque as certezas grita(ra)m alto, guitarras
em meu estômago, na pélvis, nos ombros
nos cabelos desgrenhados, na minha fala buliçosa
nas cartas do tarot. tudo imprime meu sentimento
perplexo de solidão. inimaginável. nunca nunca
nunca + nem - acreditarei nos sonhos e nas esperas
fantasmáticas.
duzentos e oitenta e oito anos se passarão
enquanto tudo permanecerá desperto.
abro os olhos, reforço o fôlego, acendo a boca
anteno os ouvidos e nunca nunca nunca
ouço nada diferente do que seu suspiro
confuso: não eram nossos nomes
mas éramos nós. nós miúdos, íntimos, profundos
nós e a lua enchendo para depois minguar
e revelar mais uma vez a inutilidade dos ciclos.
noite novamente e o tapete de prata leva ao horizonte.
nadei outra vez até o fim dos nossos nomes
e encontrei uma rima tântrica, verso quebrado
palavra tantálica posta em desacordo na música roubada.
até isso me foi negado. e por isso mesmo estou salva
até sua voz tocar meu hipotálamo
afetando meu sono, o metabolismo de minhas águas,
minha temperatura corporal.
enquanto escrevo minhas sobrancelhas crescem,
quem sabe isso me faça parecer comigo de novo
quem sabe o laço frouxo que fechou o céu e o cérebro
embrulhados, quem sabe...
[www.jotero.com/bilder/topmod/torus_moebius_ring_texture.jpg]





