segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

mais um menos um



















faz sentido pensar que 0 é o futuro e -1, o presente? faz sentido associar -12 ao presente e menos onze ao passado? faz sentido inverter os inteiros e crescer, crescer mesmo, para trás? faz sentido dizer que tudo começa em 13, que doze é o passado e o futuro estanca em 14? faz sentido o tempo ser número? faz sentido o espaço ser número negativo? espaço racional. tempo racional. partidos. aqui são exatamente 15:04:26 etc. -07° 13' 50'' 35° 52' 52'' etc. sentido. fazer sentido. se o futuro é negativo e o presente e o passado vêm antes do futuro, também são negativos. vida serial. morte serial. como pensar positivamente o negativo? como pensar nulo o negativo? pensar. fazer sentido. não. não faz. xaráp.

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer

E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

:: chico buarque, por maria bethânia ::

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

descartáveis















DESCARTÁVEL I

Farei um poema curto
de uso fácil, instantâneo
um verso desidratado
comum, assalariado
um pouco salgado
um pouco amargo e algo,
tanto assim, seco.
Poema sem exagero
de verbo azul desbotado
de metro livre caseiro,
quem sabe um poema inteiro
moderno e descartável.


DESCARTÁVEL II

Farei um poema leve
sem couro, carne, nem osso
feito um boneco de neve
faltando os pés e o pescoço
correndo o grande perigo
que cada verso derreta
escorra antes do almoço.

Farei um poema frio
gelado, batendo os dentes
mas que não chega a sorvete,
parece com picolé. Poema
que se se chupa
é pura tinta e açúcar
e água suja o poema.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

vigília


















Cabem meus olhos fechados
além de todo meu corpo
na antessala do sono
Minha cabeça é um barco
sempre indiferente ao porto.

Corto a memória em pedaços
aqui e acolá, um morto
envolto em névoa de outono
Meu coração é um arco
de ventre empenado e torto.

:: the chimera | odilon redon, 1891 ::

domingo, 14 de fevereiro de 2010

um oito zero



















cento e oitenta graus
girei o corpo
a vida girou junto
no lado oposto

o mesmo espetáculo
esplendor da relva
tomates verdes fritos
cria cuervos
um criador de camarões
um obscuro objeto do desejo
um café no deserto calling you.

mais alguns graus à esquerda
o corpo girou
e girei a vida junto
nesse espaço de encontro
te vi, no sé si eras un angel o un rubi y

apenas o céu olhou pra trás
quando perdi a trilha.

agora é hora do desafogo
da liberdade me afogar de novo
de esculpir uns sonhos
onde não posso desenhar você
porque seria o cúmulo.

 

::  torus | jotero, 2007 ::


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

dois oito sete















duzentos e oitenta e sete anos
foi o tempo de espera!
e a noite do encontro,
fechada para reformas:
mas aconteceu:
entre escombros e tropeços
meu corpo não lhe disse nada
meus olhos estancados pelo amor
não lhe disseram nada
minhas mãos salgadas não fizeram nada
nadei até o fim da fachada
onde estavam escritos nossos nomes
e notei que estavam trocados
que embora os signos estivessem corretos
não me chamava. somente o meu pequeno fogo
estava aceso na praia: vela que o vento permitiu
se extinguir sem choro.
nunca nunca nunca
me senti mais perdida e achada
porque as certezas grita(ra)m alto, guitarras
em meu estômago, na pélvis, nos ombros
nos cabelos desgrenhados, na minha fala buliçosa
nas cartas do tarot. tudo imprime meu sentimento
perplexo de solidão. inimaginável. nunca nunca
nunca + nem - acreditarei nos sonhos e nas esperas
fantasmáticas.

duzentos e oitenta e oito anos se passarão
enquanto tudo permanecerá desperto.
abro os olhos, reforço o fôlego, acendo a boca
anteno os ouvidos e nunca nunca nunca
ouço nada diferente do que seu suspiro
confuso: não eram nossos nomes
mas éramos nós. nós miúdos, íntimos, profundos
nós e a lua enchendo para depois minguar
e revelar mais uma vez a inutilidade dos ciclos.
noite novamente e o tapete de prata leva ao horizonte.
nadei outra vez até o fim dos nossos nomes
e encontrei uma rima tântrica, verso quebrado
palavra tantálica posta em desacordo na música roubada.
até isso me foi negado. e por isso mesmo estou salva
até sua voz tocar meu hipotálamo
afetando meu sono, o metabolismo de minhas águas,
minha temperatura corporal.
enquanto escrevo minhas sobrancelhas crescem,
quem sabe isso me faça parecer comigo de novo
quem sabe o laço frouxo que fechou o céu e o cérebro
embrulhados, quem sabe...

[www.jotero.com/bilder/topmod/torus_moebius_ring_texture.jpg]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

por isso tanto onda: adivinhei









Nem notei o quanto minhas unhas estavam grandes e sujas.
Notei como parecia fora de mim.
Nem notei que fui. Nem notei que vim.

O que restou? Grãozinhos de areia no ouvido direito. A onda me levou.
O que restou? Já disse: grãozinhos de areia no ouvido esquerdo.
E um mar de coisas que ainda tenho pra dizer.

O que restou? Um ombro da t-shirt cheirando a você.
E eu me cheirando na viagem de volta.
O cheiro do café que penetrou o sofá.
As latas e latas e latas de cerveja.
As piolas e piolas e piolas de cigarro.

O que restou? Grãozinhos de sua risada nos meus dois ouvidos.
O carro sujo. As pernas cansadas.
E a impossibilidade de tirar as imagens de dentro de mim.

É. Não restou muito. Tudo ainda está l-a-qui.
Restou meu castelo inexpugnável e sandálias perdidas.
Chaves perdidas, isqueiros perdidos.
Uma toalha usada e desodorante.
Dois universos em choque, e explosão e mais uma estrela recém-nascida.
Em alguns milhões de anos talvez essa luz me atravesse.

O que restou? Um prato inteirinho de camarão empanado
e a lembrança longínqua de um abraço. Agora só falta eu voltar pra onde
eu era
eu era
eu.

Agora só falta minha alma aterrissar na varanda.
O que restou? O de sempre. Nenhum começo.
O que restou? A pergunta insistente e a ressaca.
Uma roupa vermelha. Uma roupa amarela.
Seus olhos bêbados de... de quê mesmo?

Agora só falta eu morrer de novo.
Porque preciso renascer.

Restou o céu daqui e o sol sozinho.
O plano e o ponto............................................
[como sempre, me fez aprender algo fabuloso].

O que restou? Não restou nada.
“Cala a boca!”

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

this is the sounds...














propaganda política: um carro de som.
imbecis a bordo: um carro com som de estrondo tocando música que não gosto.
dezessete pardais chilreando.
minha respiração.
o parque de diversões: mesmo cd há meses e crianças gritando.
o freio no asfalto.
sete televisões ligadas em canais diferentes.
buzina.
a terra tremeu: assombro, barulho de avião caindo em cima de nós.
galhos da roseira balançando e a voz do vento.
fones de ouvido, bethânia.
telefone tocou.
impressora imprimiu.
um chup no cigarro: barulhos.
goles de cerveja. glut. glut. glut.
arroto. xixi. descarga.
gatos falando.
o óculos subindo nas orelhas: barulhinho.
silêncio. puro silêncio no msn. nenhum tunc.
as palavras roncam em seu sono diabólico, roncos assustadores.
e no sonho tem alguém cantando.
“alguém cantando longe daqui
alguém cantando ao longe, longiiii...
alguém cantando muito
alguém cantando bem
alguém cantando é bom de se ouvir”.
silêncio? nenhum.

[olha, ansiedade, nenhuma. oficialmente, não lhe persigo. você não me segue.
olha, tudo entre nós...]

:: two women | schiele, 1915 ::