finos rubores
que por tão suaves
sequer alteram a densidade da pele
sequer são visíveis a olho nu.
o coração é tanque e batuque
tambor, lá se lavam as vestes despidas
lá se tocam os dedos frenéticos, fazendo
ritmo.
o coração é porto e edifício, de lá se
afastam os transatlânticos, lá habitam
famílias inteiras e suas histórias.
o coração é branco e preto, arco-íris
filtrando a chuva, cristais que refletem
as cores que inundam o seu vermelho.
sangue. fogueira. espírito do fogo
mensageiro que entre alegorias, flamas,
chamas, anunciam brasas, carvão, diamante.
o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera branda, cólera apenas
como intensidade, como o espaço
que permite toda extrapolação,
onde o instinto é dominante e
as mais inesperadas situações
acontecem, porque as palavras não
obedecem à garganta, obrigam as cordas
e os lábios à pronúncia: palato, dentes,
tudo sucumbe à cólera.
o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera mansa, energia condensada
concentrada, motivo para acordar. e acordo.
sou acordada. não importa se não é para
um beijo, um abraço. é para a vida.
para a vida toda, eu diria, se a linguagem
permitisse voar sobre esse limite. e permite.
nada existe para sempre, mas existe
um momento solene dentro de nós
que deixa que seja dito o impossível
que a promessa seja feita embora
sem alívio, sem certezas, sem dívidas.
a dúvida não mora ali em nós
nesse momento, e não é sob a religião
mas sob o firmamento que esse impulso
se espalha, descontrolado, sagrado
e mesmo sendo dito permanece
segredo. a voz mais doce
o olhar mais sereno
as mãos mais ternas
os gestos mais brandos
e o amor se derramando
até afogar todas as tristezas
em uma cena que certamente
não merece o respeito da literatura
de arte alguma, de nenhuma instituição
ou palavra, de nada que seja humano
ou divino, e ao mesmo tempo
é tudo que há de divino e humano
em nós: dizer te amo eternamente
acreditando, com a força de uma
tempestade que suspende o dentro
e o fora, o tempo e a hora
o espaço e o ruído. só o silêncio
é permitido por alguns segundos
enquanto o mundo aceita
e desespera, porque a felicidade
quimérica é mais temida
que todos os monstros,
é quase afronta.