sábado, 9 de maio de 2009

criatura















me criou como quem cria uma personagem
me deu nome próprio
ampliou o arco dos meus olhos
me fez perder o trem das onze.

me alimentou como quem alimenta a fome
me deu doses diárias de alegria
negociou as minhas fantasias
me fez jogar doze dores fora.

me sequestrou a alma, entrou na minha história
mudou o enredo do meu samba
atrapalhou o tiro de misericórdia
que eu projetei pra mim.

me fez sentir na pele da rainha
com os dentes partiu o aço das algemas
não me recusou beijos nem poemas
e desistiu de mim num dia qualquer
dessa semana.

eu e minha personagem
sentamos na grama
o céu sem nuvens parecia chuva
o sol sem pena parecia neve
e desisti de mim num mês qualquer
desse ano.

sem rima
os versos quebrados
são uma casa em ruínas.
sem drama
o corpo em febre espera
que a doença ceda
e que o desejo aprenda
a sair de cena.




sexta-feira, 8 de maio de 2009

palimpsesto















no candelabro
dois cristais falsos
pendurados no retrato
nossos olhos denunciam a solidão
do amor que nunca soube
o que é pecado
que em divinos descalabros
se desfez nas pequeninas ilusões.

tanta coisa eu escrevo
contrárias ao que digo
ao que faço... a verdade é o descompasso
pois o amor e o desejo estão distantes
quando mentes, quando estanques
nossas mãos ainda assim se procurando.

permanentemente iguais
nosso calor, nossos sinais
palavras que ainda diremos
normais, sobre o tempo
o mormaço.

nas estradas
vicinais encontraremos povoados
pousadas que acolherão
nossos novos amores proibidos
e em cada canto desforrado
nos travesseiros procurarei
seu cheiro nas toalhas
no ar sob a copa das árvores
na velocidade das cercas passando
por mim e devorarei o barro
o asfalto os paralelepípedos
e com todos esses indícios
rabiscarei mais uns colapsos
acasos no palimpsesto de
nosso amor rasgado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

a letra















e nessa forma
o coração que andava aos pedaços
encontrou afagos
repetiu a letra
da felicidade.

e dessa forma
nada fácil
fez a fábula de um amor sem face
como o girassol do poema
como um disfarce
fujo de aceitar a faca
que me corta a carne.

mas tudo é inútil,
fábrica de sentimentos
o coração que anda aos pedaços
só sabe repetir o falso
argumento: fiapos de dor
rolam no pensamento
enquanto a fé nos beijos
não se cansa jamais.
e tudo que era feio jaz.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

frugal















ontem em meu sonho você foi rinoceronte
solitário na paisagem ovalada de um oásis.
que os sonhos não respeitam geografia,
sonhos só respeitam as vontades.

ontem em meu sonho você ria,
transformou-se em girassol selvagem,
e era noite no jardim mais branco do alasca.
que os sonhos não respeitam a argamassa
taciturna que levanta a realidade.

de manhã o lençol todo derramado
travesseiros que atravessaram o mar cáspio
descansam na cerâmica azulada.
e meu amor, tão mais simples que a memória,
estica a preguiça, devagar procura a copa:
café leite pão.

domingo, 3 de maio de 2009

muitas















eu sou o mouse e a musa
a usada e a que abusa
sou a doença e o milagre
a força e a mais covarde
a faca e os botões da blusa
a música e o alarme
o grito e a écharpe
os olhos e a navalha
o clique e a metralha
o sangue e o bombom.

eu sou na pele um bicho
do diamante o lixo
eu sou o que não sobra
a cobra e o antídoto
nem orfeu eu sou
nem sou vinícius
só sei falar de mim
e vícios.

eu sou o ópio e a deusa
a câmera e o escuro
o furo e a represa
eu sou o disco e a unha
a farsa e a fortuna
eu sou a fada e a louca
o padre e a tortura
o cuspe e quem o engole
a estrangeira e a morte
amiga de nós todos.

sábado, 2 de maio de 2009

nada no mundo















lá vão eles meus passos
na calçada a madrugada
nem fria ou solitária
tão linda a lua mais
plena de ti impossível.
saudade sim e tudo flui
em mim como se eu
a noite e tu as horas
pena que toda a tralha
- razão palavra -
não seja suficiente para dizer
meu coração
é uma estrada
onde passeias e mais ninguém
e ainda és o vento e árvores
que ladeiam.
lá vão eles meus passos
e quando piso sorrio
és o caminho q me leva à casa
onde chego e largo o corpo
na cama por uns minutos
nada no mundo é maior que a falta
do teu corpo me cobrindo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

afronta















finos rubores
que por tão suaves
sequer alteram a densidade da pele
sequer são visíveis a olho nu.

o coração é tanque e batuque
tambor, lá se lavam as vestes despidas
lá se tocam os dedos frenéticos, fazendo
ritmo.

o coração é porto e edifício, de lá se
afastam os transatlânticos, lá habitam
famílias inteiras e suas histórias.

o coração é branco e preto, arco-íris
filtrando a chuva, cristais que refletem
as cores que inundam o seu vermelho.
sangue. fogueira. espírito do fogo
mensageiro que entre alegorias, flamas,
chamas, anunciam brasas, carvão, diamante.

o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera branda, cólera apenas
como intensidade, como o espaço
que permite toda extrapolação,
onde o instinto é dominante e
as mais inesperadas situações
acontecem, porque as palavras não
obedecem à garganta, obrigam as cordas
e os lábios à pronúncia: palato, dentes,
tudo sucumbe à cólera.

o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera mansa, energia condensada
concentrada, motivo para acordar. e acordo.
sou acordada. não importa se não é para
um beijo, um abraço. é para a vida.
para a vida toda, eu diria, se a linguagem
permitisse voar sobre esse limite. e permite.
nada existe para sempre, mas existe
um momento solene dentro de nós
que deixa que seja dito o impossível
que a promessa seja feita embora
sem alívio, sem certezas, sem dívidas.

a dúvida não mora ali em nós
nesse momento, e não é sob a religião
mas sob o firmamento que esse impulso
se espalha, descontrolado, sagrado
e mesmo sendo dito permanece
segredo. a voz mais doce
o olhar mais sereno
as mãos mais ternas
os gestos mais brandos
e o amor se derramando
até afogar todas as tristezas
em uma cena que certamente
não merece o respeito da literatura
de arte alguma, de nenhuma instituição
ou palavra, de nada que seja humano
ou divino, e ao mesmo tempo
é tudo que há de divino e humano
em nós: dizer te amo eternamente
acreditando, com a força de uma
tempestade que suspende o dentro
e o fora, o tempo e a hora
o espaço e o ruído. só o silêncio
é permitido por alguns segundos
enquanto o mundo aceita
e desespera, porque a felicidade
quimérica é mais temida
que todos os monstros,
é quase afronta.