sábado, 18 de julho de 2009

um copo















eu queria só isso
um copo de poesia a cada dia
que se transformasse também em pão e pizza
e shampoo, em yõghurt com morta
dela, e roupas novas e botas e sa
patos sandálias chinelas. meias
pra quando o inverno...
poesia
no meu entender
tem que se transformar.

eu queria somente
um gosto de poesia a cada dia
que se transformasse
em armário e geladeira cheios
em telefonemas e aparelhos
grátis. perfume e brincos.
dentifrício.
uma poesia que me lançasse
um sorriso, me rendesse o bastante
pros cigarros. um copo embria
ga
nte
de poesia.

um instante de poesia por dia
onde o meu amor pelos amores
amigos amantes pai mãe vós vôs
irmãos
desconhecidos
parentes
distantes e inimigos
um instante de poesia por dia
onde esse amor fosse dito
e repetido.

eu quero

uma semente de poesia
para que eu possa plantar
e me alimentar pro resto
da vida.

uma poesia bem macia
onde eu pudesse dormir

eu queria

uma poesia que não me desse
trabalho, que saísse sem cortes
para que nenhum destino
mais ficasse preso, uma poesia
que me desse liberdade.

uma poesia totalmente sem palavras
explicáveis. eu queria só isso
um pouco de poesia a cada dia.

uma poesia pública e desonesta somente
até onde podem sê-lo as poesias
uma poesia privada de medo.

um dedo de poesia por dia
me bastaria, transformado em café
e aspirina. uma poesia sem plágio
sem ágio e sem ganância.

uma poesia sem fome:
uma poesia com fome
e comida.

eu quero
um alarido dentro da poesia
tipo passarinhos e barulho
de pétalas caindo na grama
- ventania na roseira -
eu quero uma poesia
feita somente de vento.
uma que passe e fique
passe e fique
acalmando os calores
mais tórridos se isso for preciso
uma poesia bem quente
como um sanduíche mixtu
latino palavras saborosas alho palmito
molho, uma poesia que contaminasse
os vírus malignos.

queria mais ainda: três doses
de poesia ao dia. uma poesia
assim era o que eu queria:
que morresse na hora certa
que acabasse antes da doença
que cansasse a dor.

Um comentário:

  1. Maravilhoso isso!
    Vc fez qdo eu fui dormir...
    Quem sabe um dia, a poesia vire comida também para a vida e não só para o infinito.
    bjs linda. Bom findi!

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