quarta-feira, 8 de julho de 2009
iconoclasta
acordou fadada a quebrar os vidros
de cosmético, as jarras, as portas e
janelas. De um só golpe
destruiu três mitos e quando
percebeu que o quarto estava
ensanguentado, e quando percebeu
que não estava mais no quarto
quando entendeu que em sua fúria
derramara o vaso de plantas e o
pote de geleia de goiaba, não resistiu:
lambeu o chão e as folhas e as cascas
de vidro. Cortou-se. A língua presa
à garganta arrastou os farrapos afiados
e fez em frangalhos a gengiva, o céu da boca.
Naquele apartamento, ilha pendurada em cima
do concreto, rodeado de paredes por todos os lados
não podia gritar, nem telefonar, chamar ambulância
ou vizinho. Ali mesmo, no chão, sentiu as primeiras
contrações, as segundas, as terceiras. Já não estava
na cozinha, nem no quarto. Na quarta contração
empurrou com os pés o vaso sanitário. A falsa gravidez
chegava ao fim, nove anos, dezenove, vinte e nove,
trinta e nove. Quarenta e nove. O útero seco se contraía,
ela apertava a barriga com as duas mãos. O tempo passara.
Ela não vira. Só dormia e fumava. Comia doce de goiaba,
geleia, e aguava as plantas enquanto não se cansava de chorar.
As plantas cresciam rápido, com as lágrimas. Não entendia
como elas podiam florescer sem sol. Só com sol-idão.
Mas agora, que as janelas tinham sido destruídas, depois
de tantos anos o dia invadia as esquinas dos móveis
tocava as folhas espalhadas no chão da sala. E ela
parecia acrescentada, apascentada. O corpo já não
sentia as contrações, nem mesmo a garganta rebentada
doía. A porta quebrada dava passagem. E a rua a esperava.
Mas ela se perguntava: onde é que haverá mais solidão, aqui
ou entre estrangeiros à sua alma, que circulavam lá fora,
atarefados. Nunca tinham regado nada com lágrimas. Talvez
nunca tivessem tido a coragem de esfolar um mito. Mas para
permanecer em seu silêncio e ninho teria que avançar todos
os sinais, percorrer as ruas, correr as lojas atrás de artefatos
com os quais reconstruir a solidão e os estragos. Estava assustada
e paralisada. Talvez essa fosse a forma de continuar.
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dascra ravansse, adorei o que você escreve. legal demais vir aqui. bj. leprevost.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirParece um conto, não de fadas, mas de bruxas. rsrsrsr assim como nós... "nosotras que no somos como las demas"
ResponderExcluirsaudades, bjs
(L)
ResponderExcluirT.
T.A.
ResponderExcluir(alegria pq vc veio).