sábado, 8 de novembro de 2014

roubando barthes














longa espera já começada
em pequenos sonhos de quem
dorme e acorda, dorme
e acorda, sobressaltozinhos.

no sonho se antecipava a espera:
signo do que ama e eternamente olha
para a porta, torce
o pescoço a cada ranger de carro,
se esforça para ouvir sapatos
subindo
e descendo
escadas, e se enrosca
nos fios de telefone procurando
sinais elétricos.

longa espera já começada
no olhar que não descansa,
no cérebro sobrecarregado
funcionando ininterruptamente:
erres fazendo barulho rrrrrrrrrrrrr

é quase uma trovoada, a espera: nuvens
chumbando o céu, se juntando pesadas
para a chuva. queria esperar
desmaiada e nua, no meio
de uma lufada
de vento.
 
"Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero."
O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar
aquele que não espera; tento me ocupar com outra
coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre
perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso,
pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal
do amante nada mais é que: sou aquele que espera.

[...]

Um mandarim estava enamorado de uma cortesã.
"Serei tua, diz ela, quando passares cem noites
me esperando sentando num tamborete, em
meu jardim, sob minha janela." Mas, na
nonagésima nona noite, o mandarim se levantou,
pôs seu tamborete debaixo do braço e partiu.
 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ressurreição














dei por morto meu desejo.
escrevi, sem medo, na lápide:
“nirvana”, e fiz tocar a banda.

anos serenos e vazios
dormiram em minha cama.

solto, desarmado
o coração sem vigilância
aceitou seus olhos
onde não havia ou há
intenção nem glória.

agora, fantasmagórico
o desejo dorme comigo
e acorda.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

jogos mentais














[para ME]

jogos mentais
a fauna e a flora
peças desiguais
desenhamos a demora
e o risco que
aflora
nos atrai.

desanimais
super-humanos
seres
voz fatal
permanente linguagem
agindo à margem
agindo atrás.

em repetição alguém vê o que vejo
a paisagem é parte do desejo
mas a última jogada falha
e os dias
novamente
são banais.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

para jotahah



















no meio da tarde
fotografo o céu

são tantos lindos azuis
que a dor de estar viva, morre
por, no mínimo, uns dez blues.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

a solidão e outros anos















[para lia fook shiam]
 
sou feliz quando posso ver
o rio magdalena correndo
nas águas cristalinas de gabriel
entre imagens longínquas das colômbias
desenroladas com um tapete árabe.

sou também quando ouço
o trovador, menestrel
que abandonando o feudo há cem anos
canta notícias de alaúde e acordeon
tangendo-se cigano através das serras.

e as selvas pantanosas me dão arrepios
um frio barroco e agudo
- agulha nas costelas -
que se enterra em meus músculos
enquanto percorro (quase sem geografia)
tensa e de memória
a aldeia reconhecível de macondo.

domingo, 30 de março de 2014

mas faz sentido











és uma espécie de pecado
que não soube ainda classificar
mas que sei mereces
todo xingamento
mereces que eu queime as asas
que eu desça a rua
correndo
me jogue embaixo da primeira onda
do mês de abril, o mais torpe
dos meses.
e de tudo por ti faço e digo de rastros
felizes os que conseguem
navegar na lâmina, animal
no espelho. felizes os que podem
por algum dom, milagre, mistério
atravessar qualquer pensamento
e cair bem dentro das águas mornas
ou frias, cair bem dentro
do coração do outro.
 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

permissividade












consinto que não me dirijas
a palavra,
que siga eu
igualmente calada
diante de todas as dores
desfrutadas.
e para alívio?
nenhum gole
de nada, mezinha alguma.

permito que por medo
ou desconhecido
continues a deixar
aos dedos frouxos
dos tempos
o difícil serviço
de suportar o vento
e a dança da areia
enquanto
o que sentimos
escorre sem verbo
que atenha
entre uma boca
e outra boca
o beijo.

e porque cedo
– e cedo ou tarde
hão de esvair-se
as ilusões sinceras,
como do cedro
cada vez mais longe
o olor se sente –
a culpa de todo erro
que não cometeremos
é minha