sexta-feira, 13 de setembro de 2013

poema vermelho

















o passado não cabe no poema vermelho
feito somente de voz, como se nunca tivesse sido escrito.
nele, enquanto pixels se movem - gotículas de sangue,
ouço ouço ouço. nada mais sou que ouvidos 
e olhos e um sentimento de gratidão, palavra 
que não cabe direito e escorrega 
pelo arco da íris, e se encaixa, perfeita, livre
porque no interdito, no intrasmitido, cabe o perfeito.
e só lá, nessa insuspeita nuvem tênue,
no suspiro para sempre guardado,
onde se guarda tudo que importa, existo: no centro de ser,
na respiração que denuncia o coração batendo.

{ela fez o vídeo, tela vermelha, lendo o poema}

HOUVE UM POEMA, Cecília Meireles

Houve um poema,

entre a alma e o universo.

Não há mais.

Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.

Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.


Houve um poema:

parecia perfeito.

Cada palavra em seu lugar,

como as pétalas nas flores

e as tintas no arco-íris.

No centro, mensagem doce

e intransmitida jamais.


Houve um poema:

e era em mim que surgia, vagaroso.

Já não me lembro e ainda me lembro.

As névoas da madrugada envolvem sua memória.

É uma tênue cinza.

O coral do horizonte é um rastro de sua cor.

Derradeiro passo.


Houve um poema.

Há esta saudade.

Esta lágrima e este orvalho – simultâneos –

que caem dos olhos e do céu.

rosée
















você precisa amanhecer com orvalho
acordar com um cachorro lhe lambendo a cara
ou o garoto olhando suas remelas azuis
depois precisa mais que correr pelo campo de girassóis
e alimentar a cobra: quer a música divinal tocando os raios de sol
que a vidraça filtra desenhando pó.
as cicatrizes brilham, brasas, a lâmina de diamantes
corta a maçã em pedaços: petit déjeuner.

almoça palavras verdes e verdades roseadas
o sorriso é sobremesa farta para quem habita
a outra cadeira.

a tarde larga seu calor nas almofadas
e o silêncio das vontades descansa como um gato.

à noite você precisa de galhos secos para acender a fogueira
seu acampamento, sua mochila, sua tenda: as copas das árvores
são países, o pio das corujas, despido do terror, é companhia.

e na manhã que o sonho cria você precisará de orvalho.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

estouro















o motor está matando o mundo.
no mínimo, o silêncio
é impossível
desde o carro que cruza a rua
à fonte do computador; o ventilador ligado, o ar
condicionado, a construção – prédio sendo erguido
em frente aos meus ouvidos – onde se misturam cimento
líquido e pedras. 
o liquidificador, aspirador, a geladeira 
e o micro-ondas zunindo;
os aviões, trens e navios.

o concreto matou boa
parte do mundo
em conluio com o asfalto.
não há mais ar em silêncio, e tudo que a energia liga
vem em barulho no vento. a luz matou a noite,
faz tempo
que não dormimos. o deus não é mais o sol
a deusa, a lua; os mares 
não têm mais deuses
nem os céus ou as terras.

mas tudo é nada,
todas essas mortes e barulhos
 – que me fazem reclamar
feito pessoa
a quem as máquinas, 
das a vapor às elétricas,
fascinam e enjoam –
são nada
perante as executadas possibilidades diárias
da bomba que explode a casa.


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

[...]

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

acordes



















permanece dormindo
amor

a forma sob a qual
te tenho
é tão igual
que acordado
causas rebuliço
e ninguém mais

dorme
amor

continua preso
e entorpecido:
morfina, morfeus
todo o necessário

porque se acordas
ensandecido

precisado
de ligações noturnas, diuturnas
constantes

de insanas
fantasias
a todo instante

que será dos sinais
do tráfego?

que será do que não pode
ser feito
e faço?

então, dorme
liberdade, amor
seja qual for
teu nome, dorme.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

blood money















teu trono falso
- papelão e plástico -
tua coroa fosca
- de lata e de chumbo -
não te tiram a graça,
pois teu posto é esse
número um da farsa.

mas teu serviço é triste
pura histrionice
bufando inveja
e destilando nítrico.

cumpre teu mandato:
manda à forca o forte
assa os hereges
antecipa-te a brutus.
poder inútil.

o medo é teu seguro
porém não é segredo
os que te cercam sabem
que a maldade é dura
mas não dura um eterno

e teus dias de ódio
de abuso e morte
também estão contados.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sinceros votos



















durante o ano inteiro
alimentou o silo
com ódio, milho e mel
e regou com botelhas 
de raiva
até fermentar.

durante o ano inteiro
viveu dessa ração
cinzenta
e quis que morresse aquele
e empesteasse aquela
e sequelasse aqueloutro.

durante o ano todo
cavou fossas e poços
que camuflou com risos
e abraços magros
esperando a queda.

durante o ano
rogou pragas,  levantou falsos
desejou fortíssimo que fosse
tudo impróspero
e que minguasse a água, o pão,
a palavra e o ócio.

agora, duro e inteiro
traz presente secreto
e convite para a ceia,

alardeia a paz
e escreve no cartão
o quanto amor é sério.

poupe-me do seu do natal
invero.

e para o que não vestiu
esse capuz de trevas
um feliz natal e um ano novo
às veras.

domingo, 23 de dezembro de 2012

riso



















parece que te enviaram
ultrassom do inferno
retrato do instagram
e eu
a fome do mistério
instalado no pleistoceno
revi-te, revide, bem-te-vi.

se os pássaros cantaram
e minha inocência válida
plácida e transtornada
ouviram, ouviram
que faço?

te desço do sono
pesado, sofrendo
como quem carrega
o bandido disfarçado
nas costas.

e em meio a dor
estagnada
aceito teu beijo
miséria
teu nome na mesa
farta.

que me entendam
somente os poetas
aqueles que não procuram

sentido nem rima ou cura
que me entendam
ninguém

e mesmo assim
satisfiz-me.
{sem crase nem nada}