sexta-feira, 1 de outubro de 2010

a última giulietta



















ninguém que eu conheça
mais que tu
ama trocadilhos assim
na missa
no engenho
na casa grande
no bueiro
na asa de um pterodátilo.
ninguém mais ama tanto
trocadilhos assim
como se fossem palíndromos:
irmãos gêmeos andando aflitos:
as roupas domingueiras pelo avesso.

és tão ancestral em mim
assim
como uma miss feita de papas
como uma cisma feita de mágoas.

uma única ceia magra
antes do cadafalso.

uma única cena
onde tuas penas
em revogadas
surtissem nenhum efeito
surtassem por sobre a água
feito pássaros
antes da temporada de caça
antes da ferroada que cada um
se aplica: quem depois do escuro
se lembra? só um nome de bar em recife.
depois do escuro.
depois do muro
depois das palavras que se dobram sobre si
como uma onda de asfalto.

não. não cremos em nós.
mentimos alto
e nossa última esperança
é que continuemos a mentir
que cada nosso passo
nos leve mais. nos leve.
nos enleveça. faça de nós
cada passo um centímetro a menos
nessa distância intransc
orrível.

:: noites de cabiria, giulietta masina | federico fellini, 1957 ::

sábado, 25 de setembro de 2010

dokonalost



















eu queria estar em algum canto onde tu pudesses também estar
então desvirtuei, o quanto outro pode desvirtuar, teu caminho
e tentei enviesar tua linha de fuga na direção da minha clausura
sem limites, e para entender como vivo em um espaço mínimo
e infinito é preciso, ao mesmo tempo, ser e deixar-se.

eu, hoje, já não sei se existes ou se quem aí está
se chama luzes, se apagadas, se azuis, se há motores
ainda que nos levem pelo campo das paisagens e das árvores
pois que a vida se assustou quando cheguei e ainda gritamos.

sem espelho, olhando o lodo, o ponto que queima entre as sobrancelhas
meu corpo se arqueia para suspirar, e gemo: o arrepio
trêmulo dos lábios não basta à boca, não soma ao ruído escancarado
do mundo. estática, me resumo e me expando, de tal forma
que, se pudesse, humano, me olhar diria: “exangue e alastrada”,
e de mim afastaria seu cheiro mortal e suportável.

mas não pode me olhar humano nenhum. porque o que sou
rasga a retina desacostumada de quem existe apenas para.
mais é preciso para me ver em fraldas, em sedas, em sonhos:
é necessário se drogar com água do mar e injetar o sumo
de um milhão de estrelas na veia.

justa na medida do álcool, livre como um plágio
canalha, bizarra ,antes que a meia-noite desça sobre o campanário
desacato meio mundo, e espero que depois da explosão
gigante que aguardo, todas as palavras morram
e renasçam, mais brilhantes que nunca, crispadas,
como nossos olhares nunca dantes navegados,
e anunciem um desejo rarefeito, não porque invisível,
intocável, mas porque seus destinos e resultados serão
tão tão tão tão extraordinários.

[se amas tanto tanto tanto o que é dito
se amas tanto tudo que é dito como eu amo
então tudo está perfeito e entendes o gesto
a letra e o leito que não nos foi dado porque seria
excesso, seria até errado ultrapassar a perfeição].

:: um cão andaluz | luis buñuel, 1929 ::

domingo, 7 de março de 2010

sunday



















ao mesmo tempo dos quadrinhos e um caminho
nome e sobrenome vazados num domingo.
ainda sem poder de interpretação
espero que tudo se dissipe e os ossos
só ossos se tornem pelo menos pele e pelo
e sobrevivam à minha insanidade
à minha verbosidade
ao meu chamado.
quem sabe você volta
por uma estrada menos sinuosa
porque o amor é a mais viciante
das drogas. mas é legal.

:: morphinomaniac | eugene grasset, 1897 ::

sábado, 6 de março de 2010

quantum



















quantas pontes esperas que eu atravesse
destas dúbias de sentidos que constróis
sem que eu me parta ao meio sobre o abismo?

quantas vezes dirás o que quero não ouvir
e o que quero de maneira que eu não saiba
jamais o que foi dito?

quantos acordes o vento haverá ainda
de tocar nas cordas tensas dessa incerteza
que estendes entre o que sentes e o que negas?

quantos encontros esperas que eu desdobre
refazendo as esquinas estreitas
sem que minhas asas cansadas se quebrem?

quantas entregas pretendes que eu faça
da minha presença explícita na prata
do teu espelho faminto?

quantos nomes darás ao infinito momento
em que me pensas diária navegando
em teus silêncios?

:: girl before a mirror | picasso, 1932 ::

quinta-feira, 4 de março de 2010

little














eu sei que só dura um tempo
até para os grandes
imagine pros pequenos
menores como eu
artistas se esgotam
suas almas rotas desgostam
dos versos, melodias,
todos os beijos se tornam frios
todas as mãos hirtas descansam
ao lado dos corpos, dos copos
e a voz é só um remorso
da canção.

eu sei que só dura um tempo
mesmo os mais talentos-
os maiores que compõem
que criam o que se pode
sem errar dizer poesia
um dia insípidos rabiscam
o que já foi tão dito
o que ninguém mais escuta:
a inspiração é tão curta
que não cobre a dor
não veste a ilusão
não esboça alegria.

eu sei que só dura um tempo.
parece insuficiente a palavra
melhor deixá-la na mão do vento.
mas se é preciso calar, por que falo?
se é preciso dormir, por que ardo?
se já não vale um centavo o que eu penso.
de medíocre, de igual
nunca passo, mas um compasso
ainda insiste em rodar
como se o coração, golpe em falso
pulsasse contra o que é música
traísse as notas, rebentasse as comportas
do texto ordinário e rondasse as valas
os cenários, quartos, varandas,
extorquindo sentimento
de quem não tem mais nada por dentro.

 :: all gizah pyramids ::

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

mais um menos um



















faz sentido pensar que 0 é o futuro e -1, o presente? faz sentido associar -12 ao presente e menos onze ao passado? faz sentido inverter os inteiros e crescer, crescer mesmo, para trás? faz sentido dizer que tudo começa em 13, que doze é o passado e o futuro estanca em 14? faz sentido o tempo ser número? faz sentido o espaço ser número negativo? espaço racional. tempo racional. partidos. aqui são exatamente 15:04:26 etc. -07° 13' 50'' 35° 52' 52'' etc. sentido. fazer sentido. se o futuro é negativo e o presente e o passado vêm antes do futuro, também são negativos. vida serial. morte serial. como pensar positivamente o negativo? como pensar nulo o negativo? pensar. fazer sentido. não. não faz. xaráp.

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer

E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

:: chico buarque, por maria bethânia ::

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

descartáveis















DESCARTÁVEL I

Farei um poema curto
de uso fácil, instantâneo
um verso desidratado
comum, assalariado
um pouco salgado
um pouco amargo e algo,
tanto assim, seco.
Poema sem exagero
de verbo azul desbotado
de metro livre caseiro,
quem sabe um poema inteiro
moderno e descartável.


DESCARTÁVEL II

Farei um poema leve
sem couro, carne, nem osso
feito um boneco de neve
faltando os pés e o pescoço
correndo o grande perigo
que cada verso derreta
escorra antes do almoço.

Farei um poema frio
gelado, batendo os dentes
mas que não chega a sorvete,
parece com picolé. Poema
que se se chupa
é pura tinta e açúcar
e água suja o poema.