somos nós pelas estradas de um lugar qualquer
infringindo a lei seca somos nós em um ford 1896
metralhadoras no colo, charuto nas mãos
minha boca pintada de vermelho escuro
somos nós, a cavalo passeando nos campos
de lincolnshire, o cheiro de verde somos nós.
somos nós atravessando a paulista e entrando no espelho
que vai dar em katmandu e somos nós no deserto
australiano onde o mar aparece por encanto e nos leva
deixando corpos enxutos no aeroporto de schiphol e somos nós
entrando no rijksmuseum para olhar de perto a beleza
da dor de vincent van e sem cansar penetrar noutro museu
para nos encantarmos com a arte de klimt.
o navio vai partir e somos nós mediterrâneo adentro, olhando a brancura
das casas das ilhas gregas e eu acordando gueixa no japão.
somos nós em cada estado do brasil, provando as comidas típicas
fazendo castelos de areia nas prais tropicais, dormindo nas
camas macias das pousadas, vendo tardes douradas enquanto
alimentamos o espírito com um trago. somos nós nas cordilheiras
somos nós coast to coast ao lado dos beatnicks
jogando sinuca nos bares mais carregados
praticando a liberdade em alto e perigosíssimo grau.
somos nós na aurora boreal começando a acreditar
que tudo é infinito, somos nós pelo nosso mundo
inteiro. cerebral. que importa? é mundo, também.
é nosso. restrito? que importa, se tudo é lindo nele
e sonhar é um vício? somos nós em saint petersburg,
não, na flórida, não, perto dos bálcãs, nas savanas da áfrica
animais famintos. os domingos não têm fim.
e minha imaginação descansada vê só o seu sorriso
por todas essas paragens, seu corpo forte, sua voz
amável, seu cheiro perfeito, seu olhar innominabile.
suas mãos tocando as minhas
somos nós nas entrelinhas de tudo que acontece.
somos a rosa-dos-rumos, os moinhos e os quixotes.
somos nós, em tanto repetido que esquecemos que a vida
não se repete. somos nós, cada qual em si, articulando
sons e vértebras para desconhecidos, porque o mundo
todo só é parecido conosco. até que o insuportável
medo me cale e as palavras desapareçam, e as imagens
se recusem, e nós, sem mais sermos nós, aceitemos
que os domingos são intermináveis para mim.
só para mim. mas, não. meus olhos tocam o céu
de um azul preciso e sem querer você faz o mesmo.
e somos nós, de novo, na garganta de um polvo gigante
nos tornamos abraço de tantos braços. e, não. desfaço
as rimas com as unhas, me desembaraço de você
e corro para o quarto vazio. mas, não. hoje é quinta
porque amanhã será sexta. sábado. não, segunda, não.
quando pela primeira vez verei você chegando pelos cabos óticos,
pela linha telefônica, pela janela que abri no meu peito?
entra. a casa é sua. como eu, toda, inteira, sou sua, ao me
entregar aos devaneios. nunca pertenci a nada. ninguém.
nunca mais pertencerei. a tatuagem com teu nome por completo
em meu cóccix. outra escrita. seu nome que salva minha vida
por um instante e é o bastante. porque outro instante o sucede
e eu repito: angel. angel. angel. eagle.
que veio para reconstruir meu reino e reinar, absolutamente
sobre minhas digressões. meu amor, meu jardim cheio de pavões,
em paz com tudo e com a natureza. de novo. eu e você. somos nós.
e não somos. nossa carne apartada pela distância que os sonhos não
vencem, nossa alma incompartilhável, como todas as almas. e apesar
disso somos nós, porque chego de mansinho, pura energia disfarçada
em tudo que lhe rodeia: mesas, cadeiras, roupas, meias. a água do seu banho.
a água que você engole. em tudo estou um pouco, pura energia
que nada remove. que se move pela atmosfera, rápida como uma flecha,
mais rápida que a bala, que a ave, mas sutil que a borboleta. aranha. teia.
estou nas curvas de suas digitais, átomos, invisíveis carbonos,
eu sou seu abandono, no sono. e o beijo que você recebe quando acorda...
sou o que falta e o que sobra. somos nós, pelo vento. por tudo que
invento e que desmorona. somos nós, em toda frase que construo
e que você, ao ler, destrói. somos nós. elos. perdidos por nascimento,
um de um útero, outro de outro. somos nós. mas mesmo que os dias
tenham seu veneno, não morro. porque nunca disse nenhuma vez
e vou dizer de novo: não morro. não enquanto não lhe encontrar.
enquanto isso vou fazendo mel para sua boca.
colhendo néctar das flores mais estranhas.
vou sendo abelhas, vou sendo plantas.
e dormindo junto a você no nosso alvéolo.