sábado, 30 de maio de 2009

luz del fuego















por onze vezes fui ao céu
e voltei.

depois mais onze.

então parei de contar.

sua mão era minha mão
era sua mão.

era clara e transparente
cristal sua presença,
porém inquebrantável.

meu cansaço, transformado
em delícia, me adormeceu
dentro de um sorriso
no meio do seu corpo.

acordei nos seus braços
ouvi sua voz de bom dia
e recebi o primeiro beijo
desde a criação do universo

sabendo que o amor
a tudo repetirá
e quantas vezes
você me tocar
vou mergulhar na doce agonia
meu dia é outro
minha vida.

dizer o tamanho do amor
não é fácil: a distância
somada às horas de ausência
acumulam-se na carne da esperança.

que em um amanhã bem próximo
meu sentimento possa ser exposto
direto aos seus olhos, seu coração.
e, quem sabe, a morte perde a vontade
a dor esquece de nós?

e a vida será leve
como suas asas, forte
como seu rugido:
nossas feras, nossos anjos
soltos comemorando
o encontro marcado
por nenhuma despedida.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

calendário















e se eu disser
que foi pra você
que levantei no escuro
sem fazer barulho
de lanterna em punho
foquei a folha branca
e rabisquei a dança
dos meus pensamentos?

e se eu disser
que tudo que escrevo
tem seu nome dentro
que sou cem por cento
sua de março a novembro?

o resto do tempo?
em janeiro
minhas férias são você
em fevereiro
você meu é carnaval
e meu natal quem é?
você.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

nomes















hoje eu quis dizer
na primeira escritura do dia
quando abri os olhos, bocejei
estiquei os ombros e braços
e tentei tocar o chão com as pontas dos dedos...

hoje eu quis dizer
logo na primeira hora
na coisa inicial que fosse escrever
pensando enquanto escovava os dentes
enquanto clicava o isqueiro
para o cigarro número um...

hoje eu quis dizer
que haveria um sinal
que eu enviaria um mandatário
um carteiro, um pombo-correio
um signo decifrável somente por ti.

hoje eu quis dizer
que uma borboleta te visitaria
e baixinho, doce, como costumam
falar as borboletas
ela esvoejaria ao teu redor
e baixinho, doce, como costuma
ser a fala das borboletas
ela te diria meu nome.

agora a manhã já vai longe
são 10:49. uma uma borboleta
um bichinho com assas
esvoejou em meu ombro.
quase pousou. impressionante.
quase pousou.
e disse, bem baixinho e doce:
vou mentir. e acrescentou:
teu amor lembrou de ti
agora.
mais baixinho ainda tornou
a falar. antes deu uma risadinha
deliciosa. e disse:
vou ficar quietinha para que você
possa me fotografar e me mandar
de volta. teu amor espera.

eu obedeci.


sábado, 23 de maio de 2009

revertério














o que você quer? diga pr'eu dar! quer a flor
no meu cabelo, meu maior pentelho?
quer um filho? um cadeado?

diga logo! o que é que você quer?
o sol? calço luvas de amianto
pra buscá-lo. a luz? a lua?
compro o lado conhecido
e o outro lado (à nasa, é claro!)

o que você quer? uma casa?
um texto? um telhado? duas águas
marinhas e um topázio? quer o amor
meio a meio? quer um caso?

o que é que você quer que eu não acho?
um lastro? um navio? um baseado?
um psicanalista tempo integral
o mal mal disfarçado? o mar?
um aterro?
um carro novo? o que é que não me atrevo?

o que você quer? um doce de algas
e sargaços? a boca sempre rindo
dos palhaços? diga o que é!
que você já tem e ainda quer...
é um espelho? é o bico
a parte dura do meu seio? o que é?
me conte, eu dou um jeito...
é o sexo? um reflexo? é o meu recheio?
pois eu dou. dou tudo, que só sei amar
inteira, engolindo como a maré cheia.

quer um pouco de areia no seu corpo? quer
o mel e a língua desabusada lambuzando
a torto e a direito? quer as asas
do meu pássaro? o cativeiro? quer a cor
estúpida do dinheiro? esperança?
pois eu cavo e desenterro
abro uma mina. quer na minha
mão uma lâmina? me assassinar?
quer o toque indecifrável dos meus medos?

quer? o que é que você quer? por favor,
me diga! quer estar no meu umbigo?
minha barriga? quer as traças que me roem?
quer os portos, os faróis? os meus lençóis?
meus lenços brancos de cambraia na partida?
quer que eu tranque todo escuro no meu quarto?

quer nunca mais ser infeliz? quer meu retrato?
o que é? o que é? andar de quatro?

quer um prato sem fundo como um poço? quer um fruto
maduro? um pessegueiro? peixes de prata, a mata?
inventos ou outra máquina?

quer o mundo? o esboço que criei?
ah! cansei...


para victor hugo ceccato , pq ele diz q gosta. eu gosto dele :)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

somos nós















somos nós pelas estradas de um lugar qualquer
infringindo a lei seca somos nós em um ford 1896
metralhadoras no colo, charuto nas mãos
minha boca pintada de vermelho escuro
somos nós, a cavalo passeando nos campos
de lincolnshire, o cheiro de verde somos nós.

somos nós atravessando a paulista e entrando no espelho
que vai dar em katmandu e somos nós no deserto
australiano onde o mar aparece por encanto e nos leva
deixando corpos enxutos no aeroporto de schiphol e somos nós
entrando no rijksmuseum para olhar de perto a beleza
da dor de vincent van e sem cansar penetrar noutro museu
para nos encantarmos com a arte de klimt.

o navio vai partir e somos nós mediterrâneo adentro, olhando a brancura
das casas das ilhas gregas e eu acordando gueixa no japão.
somos nós em cada estado do brasil, provando as comidas típicas
fazendo castelos de areia nas prais tropicais, dormindo nas
camas macias das pousadas, vendo tardes douradas enquanto
alimentamos o espírito com um trago. somos nós nas cordilheiras
somos nós coast to coast ao lado dos beatnicks
jogando sinuca nos bares mais carregados
praticando a liberdade em alto e perigosíssimo grau.

somos nós na aurora boreal começando a acreditar
que tudo é infinito, somos nós pelo nosso mundo
inteiro. cerebral. que importa? é mundo, também.
é nosso. restrito? que importa, se tudo é lindo nele
e sonhar é um vício? somos nós em saint petersburg,
não, na flórida, não, perto dos bálcãs, nas savanas da áfrica
animais famintos. os domingos não têm fim.
e minha imaginação descansada vê só o seu sorriso
por todas essas paragens, seu corpo forte, sua voz
amável, seu cheiro perfeito, seu olhar innominabile.

suas mãos tocando as minhas
somos nós nas entrelinhas de tudo que acontece.
somos a rosa-dos-rumos, os moinhos e os quixotes.
somos nós, em tanto repetido que esquecemos que a vida
não se repete. somos nós, cada qual em si, articulando
sons e vértebras para desconhecidos, porque o mundo
todo só é parecido conosco. até que o insuportável
medo me cale e as palavras desapareçam, e as imagens
se recusem, e nós, sem mais sermos nós, aceitemos
que os domingos são intermináveis para mim.

só para mim. mas, não. meus olhos tocam o céu
de um azul preciso e sem querer você faz o mesmo.
e somos nós, de novo, na garganta de um polvo gigante
nos tornamos abraço de tantos braços. e, não. desfaço
as rimas com as unhas, me desembaraço de você
e corro para o quarto vazio. mas, não. hoje é quinta
porque amanhã será sexta. sábado. não, segunda, não.
quando pela primeira vez verei você chegando pelos cabos óticos,
pela linha telefônica, pela janela que abri no meu peito?
entra. a casa é sua. como eu, toda, inteira, sou sua, ao me
entregar aos devaneios. nunca pertenci a nada. ninguém.
nunca mais pertencerei. a tatuagem com teu nome por completo
em meu cóccix. outra escrita. seu nome que salva minha vida
por um instante e é o bastante. porque outro instante o sucede
e eu repito: angel. angel. angel. eagle.

que veio para reconstruir meu reino e reinar, absolutamente
sobre minhas digressões. meu amor, meu jardim cheio de pavões,
em paz com tudo e com a natureza. de novo. eu e você. somos nós.
e não somos. nossa carne apartada pela distância que os sonhos não
vencem, nossa alma incompartilhável, como todas as almas. e apesar
disso somos nós, porque chego de mansinho, pura energia disfarçada
em tudo que lhe rodeia: mesas, cadeiras, roupas, meias. a água do seu banho.
a água que você engole. em tudo estou um pouco, pura energia
que nada remove. que se move pela atmosfera, rápida como uma flecha,
mais rápida que a bala, que a ave, mas sutil que a borboleta. aranha. teia.

estou nas curvas de suas digitais, átomos, invisíveis carbonos,
eu sou seu abandono, no sono. e o beijo que você recebe quando acorda...
sou o que falta e o que sobra. somos nós, pelo vento. por tudo que
invento e que desmorona. somos nós, em toda frase que construo
e que você, ao ler, destrói. somos nós. elos. perdidos por nascimento,
um de um útero, outro de outro. somos nós. mas mesmo que os dias
tenham seu veneno, não morro. porque nunca disse nenhuma vez
e vou dizer de novo: não morro. não enquanto não lhe encontrar.

enquanto isso vou fazendo mel para sua boca.
colhendo néctar das flores mais estranhas.
vou sendo abelhas, vou sendo plantas.
e dormindo junto a você no nosso alvéolo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

sem noção















perdi a noção do perigo

vou

tocar fogo nos livros e nas bulas
mastigar as lâminas mais duras
mergulhar na lava do vulcão
morcegar na highway um caminhão
ir a pé daqui pra palestina
adoçar meu café com estricnina
abraçar um grande porco-espinho
insultar a mãe de um assassino

perdi a noção do perigo

vou

beijar na sua boca sem pedir
sonhar que de você não vou partir
esquecer que o tempo é implacável
decidir nomear o inominável
destrancar a jaula da pantera
pular do avião sem paraquedas
me entregar ao vício de beber
me anular até o desnascer

tudo inútil
você não me percebe
se tocasse no quente do meu corpo
diria que é febre

tudo inútil
você me ignora
se olhasse em meus olhos
diria que é breve.

mas é amor.

perdi a noção do perigo eu vou...

terça-feira, 19 de maio de 2009

because















aquário em chamas
o lastro frio da cama
e tua dor me chutando.
faço um esforço para sair da trama
e lembrar o sorriso-vida
de outros filmes.
arte é real.
parte minha ri de feliz
por te saber assim
capaz de fingir
as dores que deveras sentes,
e vejo teu mundo interior
inteiro do que é sensível,
cheio de magia e risco
silêncio e grito
melodia e sorvete
poesia e medo
gargalhada e dengo
fortaleza e feno
obscuro e claro
bastidores e palcos
de bicho e gente:
um ser humano todo.