ver-te
vez por mês
(talvez mais)
olhares semanais
diários, e enquanto
dormes não olhar
teus olhos fechados
porque há nisso
um quê de macabro
um silêncio invasivo
um requebro de posse
inegável, um traço
desnaturado de assalto.
ver-te
sempre uma vez
mais, olhando o cais
os dias, o rio
e depois do almoço
deixar teu sono farto
no sofá, enquanto absorvo
meu sonho próprio
porque há nisso
um quê de amor insólito
um silêncio livre
possível, um abraço
infinito e fácil.
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
laço
terça-feira, 20 de setembro de 2022
caminho
me pedirás para ir
eu irei
me dirás: vem antes
eu irei
contigo em lugares
belos que queres
repartir céus
e quartos de estalagens
onde à noite
no escuro
dançaremos
contigo, antes,
já sou feliz
em teus braços
que me alcançam
somente se há sombra
e podes existir
na confusão dos olhos
me pedirás para ficar.
:: enclosed field with rising sun | vincent van gogh, 1889 ::
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
odissea
em sonho
me vi vegana
rasgando o couro
de um bicho
com os dentes,
mastigando
pedaços do teu nome
insana
acordei um mundo
diferente, planejei
artimanhas
de quem descrente
sonha ganhar, na fé,
beijos e mãos
carnívora
abocanhei as frutas
com ar
dentes
sorrisos
no espelho invertido
dos amores
você dizia
sim
e eu não
travei o chão
nos pés, corri
quilômetros, milhas
abreviei os anos
cuspi vagas marítimas
até afogar o navio
espartana
permaneci atada ao mastro
mas não pude, de fato,
ignorar a luz dos olhos
e adormeci, de fato.
:: strong dream | paul klee, 1929 ::
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
dawn
na madrugada
as perguntas são
o ponteiro das horas
: que perfume você usa?
: com quem você mora?
: com pouco sal
ou comida salgada?
: adoçante ou açúcar
na salada?
meu nonsense
querendo sua risada
:)
disparates
que você conhece,
entende, e o pior
: adora.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
certas tristezas da infância
Emoção de agosto
último vento para o menino
e seu papagaio
que quase ave
era brinquedo novo.
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
stoned
desta vez
os livros chegaram
e sequer li os prefácios
pois os títulos bastam
pra me arrebatar
eu poderia acusar-te
de sequestro
senão a ti
tua palavra
roubada onde entrei
feliz como se não fosse
essa uma dita má condição
maldita então
ou há alegria na entrega
sem reservas ou pré-condição?
poderia explicar como deslizo
nas referências aos palhaços
as famas que me levam
craseadas ou sem
pros braços de louie satchmo
"argonauta sem tréguas"
como eu disse de veloso
uma vez em canção
que finalizei assim:
"terra pra que te quero?"
mas não
prefiro
enterrar minha cabeça
no forno em companhia amada
outro deslize e caio soprada
pelos ventos alísios
na cornucópia de ópio.
da literatura dos tristes fins
ficam-se-me os dedos
sem memória de cortes
que papéis afiados deixam
carpo metacarpo falanges
de desarranjos tortos
toda a vida sem rima
porque não há mesmo
solução
querido mundo.
sshhh...
silêncio!
o sol está vindo
ouça
e ainda resta outro
porvir
via estafeta
ele trará
desbastamentos
do tigre assíncrono
devorador de si
do fogo
eterno
que desbasta o campos.
espero.
e que não seja o último.
:: louis armstrong | world-telegram staff photographer, 1953 ::
domingo, 7 de agosto de 2022
pecado original
todo dia meu amor cresce
edifício em construção
tem seus mortos caídos
dos andaimes e estruturas
de aço.
mas engraçado
à noite
enquanto dormem
engenheiros pedreiros e arquitetos
ele também cresce
um olhar mais perto
revela tijolos feitos
de mistério colados
com argamassa que é mistura
de desejo e sorte.
:: manoscritto_B | leonardo da vinci, 1488-90 ::
80 anos de caetano veloso
♫
Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
♪


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