quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

quarta











vivo em uma margem
– zinha, parca, minha –
que inventei.

vivo na canoazinha
magra, fina que faz água
– justamente é esse meu sustento:
vivo de esvaziá-la.

vivo porque fantasio
que findada a tarde
chegarás com sede
alegre e será tudo pão,
palavra, rio e riso.

por isso vivo.

:: a terceira margem do rio de nelson ::

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

sinfonia

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
já estou pronta para veneza.

traz-me a única beleza possível:
a do amor imberbe, a do amor ralo
a do mundo intacto, a do mundo roído.

tira a argamassa dos meus olhos secos
mastiga uma unha minha, desaprende o nojo

encosta teu ouvido no oco
revolve as cinzas
aproxima a morte mais um pouco
para que o coração se cale.

rasga o que foi in-
vestido em sentimentos torpes
que só a velhice entende

queima a ponta virgem do meu cigarro
acende uma vela, sopra, toma
um gole das dores que já não sinto

morde essa felicidade dura
orgulha-me de eu não ser mais
oferece-me dez gotas de perfume
antes que o mar acabe

ou te aborreças.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

coisas de família

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
meu avô era um velho
de olhos vermelhos, injetados
de cachaça e emoção. gordo e grande
fala de trovão: meu avô
era um caririzeiro enorme
que matava onça de susto e pescava
tubarão de açude.

então andou pro sertão, virou padeiro
falando em ford 39, jogando no bicho
do 1º ao 5º, frequentando cabaré.
depois, casou-se com uma costureira
chamada minha vó.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

utp



















I   - Mitra
      O deus dos Utópicos, dos Desvalidos
      que Morus aprendeu com Hitlodeu.

II  - Ermético
       o deus da Guerra e da Família
       com mais de dois braços e pernas
       feito imagem, escultura hindu.

III - Sumítica
       a moeda de um Tempo
       (sinal de outro apocalipse)
       que os alquimistas fabricam
       aos tonéis.

IV  - Nós
        aqui sem sanidade, padecendo
        de uma civilização inconcebível,
                                           concebida,
        não passamos de chips, microvida,
        perdidos entre o hard e o software.

sábado, 18 de agosto de 2018

não à manhã



















amanhã não venho.
eu poderia escrever o roteiro de um filme
em cima dessa fala.
mas eu escrevo nada.
as pessoas pensam que escrevem.
mas escrevem nada.
não há nada para ser dito
em lugar algum.
há palavras que precisam sobreviver.
só isso.
há as folhas brancas,
mais inúteis que nunca,
agora que o cristal líquido e os pixels
desenham o pensamento.
mas não há nada para se escrever.
nenhum filme para ser rodado.
amanhã não venho.
vou fazer um filme.
amanhã não venho.
vou enlouquecer.
amanhã não vem.
a noite de hoje é a última.
vou fazer um filme trágico
cujo título vocês já sabem:
amanhã não venho.
quero fazer um drama,
maior que otelo,
mais otário,
maior que um amuleto
que atrai a morte.
quero tomar um chá e espirrar
até que sangre o meu nariz.
quero escrever tudo que ela goste.
quero só escrever coisas que ela goste.
que ela goze.
que ela não possa mais viver
sem o que eu escrevo.
vou escrever o roteiro desse filme.
eu sei fazer isso.
eu vou aprender.
ela me chama de Clarice.
não. ela não me chama de clarice.
diz que eu sou Clarice Dela.
sou a cadeladela.
ela é a minha cidadela de fogo.
meu inferno quentinho.
o inferno é apenas uma fogueira de são joão
onde se assam milhos.
ninguém nunca soube disso.
esse fato vai estar no filme.
vou mostrar o que é o inferno.
e vou dizer: ela me faz viver
e vou colocar todo o peso do meu filme
em suas asas de prata, cidade dos anjos.
vou viver e vou voar para perto dela que voa.
eu sou a cega na porta do edifício
que recolhe a moeda que ela joga
quando passa no salto.
eu sou a cega, amiga do porteiro,
que recolhe a moeda que ela joga
sem que se ouça seus passos de tênis.
eu sou a cega a caminhar com ela.
atravesso em segurança as ruas
sugando com as narinas
o perfume de seus cabelos.
hoje eu quero exagerar
e escrever um roteiro.
as cenas estão todas aqui escritas.
mas ninguém vê. eu vejo.
eu sou a que vê quando ela joga a moeda
para a mulher cega na calçada.
eu sou a moeda.
meu rosto está na moeda.
eu sou a água da poça que lava os pombos.
eu estou na vida como uma música está no mundo.
estou para o que der e vier.
ela chega ao amanhecer.
só conhece madrugadas.
seu dia inteiro é uma madrugada.
em cemitérios felizes espalha seu sorriso
e suas covinhas de brinquedo.
claro. como é tão claro esse filme.
só os mortos são felizes.
ou os que ainda não nasceram.
por isso há tanta paz nesses lugares.
aquele silêncio bonito e rosas murchas.

:: july | tasos chonias, 2014 ::

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

événementielle















nos orbes obscuros do meu peito
ventrículos devoram e chutam sangue
como devoram estrelas
os buracos negros.

dentro de mim esse universo
cerze diatribes e vazios
que não conhecem algum vocabulário
onde a dor não seja cálculo
e certeza.

prestes a prender-te nestes versos
─ súbita, como é-me ser ─
destravo as portas
libero as pontes
encomendo ventos
para a ampla vela
feita de migalhas, meias
peças íntimas, farelos, cinzas
porque sempre e de novo
antes mesmo de morrer és pó
e naquilo em que te tornaste
cárcere e tristeza são a reza, a regra
e a exceção: o vácuo completo se avizinha.
não nos devorará: cerziremos a tua e minha estradas
e antes que um evento venha
uma madrugada
teremos partido.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

personagem I

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
sou uma mistura
de frutas e hortaliças.
às vezes sou como um grão.
coco, mamão, alface
verdura, moleza e oco.

às vezes sou abacate, densa
forte, cremosa,
grossa.

mas veja, também sou rosa.

com ódio, arranco raízes
sou peste, cinza, daninha.

sou como todo mundo:
água e sangue, elementos:
ferro, potássio, cimento.

no fundo, como todo mundo:
morango, batata, adubo.

:: what happens to our bodies after we die? :: farnaz khatibi jafari ::