segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

coisas de família

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
meu avô era um velho
de olhos vermelhos, injetados
de cachaça e emoção. gordo e grande
fala de trovão: meu avô
era um caririzeiro enorme
que matava onça de susto e pescava
tubarão de açude.

então andou pro sertão, virou padeiro
falando em ford 39, jogando no bicho
do 1º ao 5º, frequentando cabaré.
depois, casou-se com uma costureira
chamada minha vó.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

utp



















I   - Mitra
      O deus dos Utópicos, dos Desvalidos
      que Morus aprendeu com Hitlodeu.

II  - Ermético
       o deus da Guerra e da Família
       com mais de dois braços e pernas
       feito imagem, escultura hindu.

III - Sumítica
       a moeda de um Tempo
       (sinal de outro apocalipse)
       que os alquimistas fabricam
       aos tonéis.

IV  - Nós
        aqui sem sanidade, padecendo
        de uma civilização inconcebível,
                                           concebida,
        não passamos de chips, microvida,
        perdidos entre o hard e o software.

sábado, 18 de agosto de 2018

não à manhã



















amanhã não venho.
eu poderia escrever o roteiro de um filme
em cima dessa fala.
mas eu escrevo nada.
as pessoas pensam que escrevem.
mas escrevem nada.
não há nada para ser dito
em lugar algum.
há palavras que precisam sobreviver.
só isso.
há as folhas brancas,
mais inúteis que nunca,
agora que o cristal líquido e os pixels
desenham o pensamento.
mas não há nada para se escrever.
nenhum filme para ser rodado.
amanhã não venho.
vou fazer um filme.
amanhã não venho.
vou enlouquecer.
amanhã não vem.
a noite de hoje é a última.
vou fazer um filme trágico
cujo título vocês já sabem:
amanhã não venho.
quero fazer um drama,
maior que otelo,
mais otário,
maior que um amuleto
que atrai a morte.
quero tomar um chá e espirrar
até que sangre o meu nariz.
quero escrever tudo que ela goste.
quero só escrever coisas que ela goste.
que ela goze.
que ela não possa mais viver
sem o que eu escrevo.
vou escrever o roteiro desse filme.
eu sei fazer isso.
eu vou aprender.
ela me chama de Clarice.
não. ela não me chama de clarice.
diz que eu sou Clarice Dela.
sou a cadeladela.
ela é a minha cidadela de fogo.
meu inferno quentinho.
o inferno é apenas uma fogueira de são joão
onde se assam milhos.
ninguém nunca soube disso.
esse fato vai estar no filme.
vou mostrar o que é o inferno.
e vou dizer: ela me faz viver
e vou colocar todo o peso do meu filme
em suas asas de prata, cidade dos anjos.
vou viver e vou voar para perto dela que voa.
eu sou a cega na porta do edifício
que recolhe a moeda que ela joga
quando passa no salto.
eu sou a cega, amiga do porteiro,
que recolhe a moeda que ela joga
sem que se ouça seus passos de tênis.
eu sou a cega a caminhar com ela.
atravesso em segurança as ruas
sugando com as narinas
o perfume de seus cabelos.
hoje eu quero exagerar
e escrever um roteiro.
as cenas estão todas aqui escritas.
mas ninguém vê. eu vejo.
eu sou a que vê quando ela joga a moeda
para a mulher cega na calçada.
eu sou a moeda.
meu rosto está na moeda.
eu sou a água da poça que lava os pombos.
eu estou na vida como uma música está no mundo.
estou para o que der e vier.
ela chega ao amanhecer.
só conhece madrugadas.
seu dia inteiro é uma madrugada.
em cemitérios felizes espalha seu sorriso
e suas covinhas de brinquedo.
claro. como é tão claro esse filme.
só os mortos são felizes.
ou os que ainda não nasceram.
por isso há tanta paz nesses lugares.
aquele silêncio bonito e rosas murchas.

:: july | tasos chonias, 2014 ::

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

événementielle















nos orbes obscuros do meu peito
ventrículos devoram e chutam sangue
como devoram estrelas
os buracos negros.

dentro de mim esse universo
cerze diatribes e vazios
que não conhecem algum vocabulário
onde a dor não seja cálculo
e certeza.

prestes a prender-te nestes versos
─ súbita, como é-me ser ─
destravo as portas
libero as pontes
encomendo ventos
para a ampla vela
feita de migalhas, meias
peças íntimas, farelos, cinzas
porque sempre e de novo
antes mesmo de morrer és pó
e naquilo em que te tornaste
cárcere e tristeza são a reza, a regra
e a exceção: o vácuo completo se avizinha.
não nos devorará: cerziremos a tua e minha estradas
e antes que um evento venha
uma madrugada
teremos partido.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

personagem I

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
sou uma mistura
de frutas e hortaliças.
às vezes sou como um grão.
coco, mamão, alface
verdura, moleza e oco.

às vezes sou abacate, densa
forte, cremosa,
grossa.

mas veja, também sou rosa.

com ódio, arranco raízes
sou peste, cinza, daninha.

sou como todo mundo:
água e sangue, elementos:
ferro, potássio, cimento.

no fundo, como todo mundo:
morango, batata, adubo.

:: what happens to our bodies after we die? :: farnaz khatibi jafari ::

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

godiva



















ela era tão fada, princesa, singela
tão singela e negra, e era linda e farta
era tão escrava, tão pequena e forte
tão cortante e norte, desorientada
era perfeita e ontem, era dor e sons
tanto elefante, tanto espingarda

era assim de azuis, de senões, milagres
tinha olhos velozes e doces, macios
tinha a voz de jazz e os pés de estio
tudo que queria era seu, bem fácil

não faltava o sono, o linho, a estrela
na mesa: mel, pão, ópio, a geleia amarga.
só não tinha amor, só não tinha amor
nessa torre alta, imensa, ao longe
escrevia cartas de felicidade
esperava príncipes, corcéis, verdades
sonhava que as grades por mágica sumiam

lia livros curtos, dourados, pulsantes
lia as próprias mãos e os mapas dos mundos
lia o mar escuso, liames e algas
só não tinha amor, só não tinha amor

em verão vazio, ardente, deserto
alucinações e desejos selvagens
tomaram seu corpo, seu sangue fervente
febre, sede e o gosto morno, ácida saudade
do que não tivera, imaginara, crera:
não era amor nem príncipe o que lhe faltava

e quando o cavalo todo asas e voo
como um zeppelin de pelo, de carne e crinas
borboleta enorme sustentou os ares
por um breve instante enquanto a torre morta
se desfazia em pedras, implodindo em poeiras
cuspindo poesia e areias ela aceitou
vadia, serena, sincera, sem cela
sem estribo ou brida, vestiu calcanhares
vestiu um sorriso como nunca antes
nem na mais lúcida fantasia ousara
partiu em disparada, senhora de si
cavalgando nua nuvens, montando a liberdade.

quem quer o amor, quem quer o amor?

:: lady godiva with butterflies | dalí, 1976 ::

* gp, geraldo pinto, disse: me dá uma letra pr'eu musicar. dei. agora, mexi só um cadinho =)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

josé julio jorge



a noite é imprecisa
navio na corcova
do camelo
o homem se abriga
na tempestade
de si mesmo.

dois
o deus e ele
entre os raios
procurando
os dias no espelho.

a sorte é escondida
enguia em meios às algas
pesadelo
o homem se acredita
náufrago do naufrágio
de si mesmo.

pelas ruínas
-cego -
circulares
lendo labirintos
com os dedos.

a morte é esquecida
memória contrária do começo
o homem se multiplica
no mito, no ídolo, no avesso

e é o tempo
espuma
sobre os mares
um segundo
único e espesso