sábado, 15 de fevereiro de 2014

fixação


a boca seca, os olhos
não consigo olhar nos olhos.
é como se pudessem ali
a violência das roupas
rasgadas docemente
e o silêncio das músicas clássicas.
desnudamento dos tons crepusculares
da pele entardecendo enquanto o mar
prende o sol nas águas.
sombras nos olhos secos, sombrio
lábio de batom escuro que trago
à noite com luvas nas mãos e espelho.
escuto a boca seca, os olhos acesos
e vermelhos sinais de alerta.
quase não encontro ritmo
a voz tropeça
o caminho tem paredes acrílicas
e alegres. sem olhar nos olhos, os olhos
desprezam a pressa e se fixam
como nos sonhos: olhar 
sem rosto.

sábado, 18 de janeiro de 2014

caravela













porque comemoras enquanto te juro amores
e nada mais fazes que velejar por teus abismos
e pensas que não sei que teu hálito é um lugar quente
onde eu poderia habitar sem pré-
juízos. isso me aflige em solidões
e deixa a invenção mais triste. é preciso
que teu rosto preste atenção aos pores-do-sol
e ao nascente arbusto que
uma vez plantado, esqueceste. é um perigo
teu olhar tão cafajeste e tua roupa

justo no momento em que me dispo.
 

sábado, 4 de janeiro de 2014

jogo de búzios













lanço-te um morto
varado de espadas.
outro não é
que meu amor.

não digo nosso
porque recordo
solitárias vagas
uma a uma me levando
para longe de teus olhos
quase aflitos
entre um e outro 
meu sumiço
nas espumas.

escrevo-te
ainda
porque não posso
dar-me
como queres
ao esquecimento 
ou amizade.
 
:: cauris ::

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

anun cio



















precisa-se de um corpo
senão de um todo –
que vá do conforto
ao gozo –
um que se resuma
ao infinito
encontro de mãos, quiçá
de bocas.

preciso do seu corpo
senão em todo
percurso do sonho,
esse seu que vá 
no limiar do sono
me adormecendo
em abraço.
 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

poema vermelho

















o passado não cabe no poema vermelho
feito somente de voz, como se nunca tivesse sido escrito.
nele, enquanto pixels se movem - gotículas de sangue,
ouço ouço ouço. nada mais sou que ouvidos 
e olhos e um sentimento de gratidão, palavra 
que não cabe direito e escorrega 
pelo arco da íris, e se encaixa, perfeita, livre
porque no interdito, no intrasmitido, cabe o perfeito.
e só lá, nessa insuspeita nuvem tênue,
no suspiro para sempre guardado,
onde se guarda tudo que importa, existo: no centro de ser,
na respiração que denuncia o coração batendo.

{ela fez o vídeo, tela vermelha, lendo o poema}

HOUVE UM POEMA, Cecília Meireles

Houve um poema,

entre a alma e o universo.

Não há mais.

Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.

Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.


Houve um poema:

parecia perfeito.

Cada palavra em seu lugar,

como as pétalas nas flores

e as tintas no arco-íris.

No centro, mensagem doce

e intransmitida jamais.


Houve um poema:

e era em mim que surgia, vagaroso.

Já não me lembro e ainda me lembro.

As névoas da madrugada envolvem sua memória.

É uma tênue cinza.

O coral do horizonte é um rastro de sua cor.

Derradeiro passo.


Houve um poema.

Há esta saudade.

Esta lágrima e este orvalho – simultâneos –

que caem dos olhos e do céu.

rosée
















você precisa amanhecer com orvalho
acordar com um cachorro lhe lambendo a cara
ou o garoto olhando suas remelas azuis
depois precisa mais que correr pelo campo de girassóis
e alimentar a cobra: quer a música divinal tocando os raios de sol
que a vidraça filtra desenhando pó.
as cicatrizes brilham, brasas, a lâmina de diamantes
corta a maçã em pedaços: petit déjeuner.

almoça palavras verdes e verdades roseadas
o sorriso é sobremesa farta para quem habita
a outra cadeira.

a tarde larga seu calor nas almofadas
e o silêncio das vontades descansa como um gato.

à noite você precisa de galhos secos para acender a fogueira
seu acampamento, sua mochila, sua tenda: as copas das árvores
são países, o pio das corujas, despido do terror, é companhia.

e na manhã que o sonho cria você precisará de orvalho.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

estouro















o motor está matando o mundo.
no mínimo, o silêncio
é impossível
desde o carro que cruza a rua
à fonte do computador; o ventilador ligado, o ar
condicionado, a construção – prédio sendo erguido
em frente aos meus ouvidos – onde se misturam cimento
líquido e pedras. 
o liquidificador, aspirador, a geladeira 
e o micro-ondas zunindo;
os aviões, trens e navios.

o concreto matou boa
parte do mundo
em conluio com o asfalto.
não há mais ar em silêncio, e tudo que a energia liga
vem em barulho no vento. a luz matou a noite,
faz tempo
que não dormimos. o deus não é mais o sol
a deusa, a lua; os mares 
não têm mais deuses
nem os céus ou as terras.

mas tudo é nada,
todas essas mortes e barulhos
 – que me fazem reclamar
feito pessoa
a quem as máquinas, 
das a vapor às elétricas,
fascinam e enjoam –
são nada
perante as executadas possibilidades diárias
da bomba que explode a casa.


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

[...]