o motor está matando o mundo.
no mínimo, o silêncio
é impossível
desde o carro que cruza a rua
à fonte do computador; o ventilador ligado, o ar
condicionado, a construção – prédio sendo erguido
em frente aos meus ouvidos – onde se misturam cimento
líquido e pedras.
o liquidificador, aspirador, a geladeira
e o micro-ondas zunindo;
os aviões, trens e navios.
o concreto matou boa
parte do mundo
em conluio com o asfalto.
não há mais ar em silêncio, e tudo que a energia liga
vem em barulho no vento. a luz matou a noite,
faz tempo
que não dormimos. o deus não é mais o sol
a deusa, a lua; os mares
não têm mais deuses
nem os céus ou as terras.
mas tudo é nada,
todas essas mortes e barulhos
– que me fazem reclamar
feito pessoa
a quem as máquinas,
das a vapor às elétricas,
fascinam e enjoam –
são nada
perante as executadas possibilidades diárias
da bomba que explode a casa.
:: ode triunfal | álvaro de campos, 1914 :: fragmento ::
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
[...]
:: bombardeiro B-29 ::






