quarta-feira, 24 de março de 2021

mais nenhum


















O último amor
explodiu a manhã
com mãos nuas
extraiu cada estilhaço
de medo
do meu corpo
com asas úmidas
estendeu-se ao sol,
despudorado.

O amor último 
abriu as cortinas
tocou com antenas finas
um raio de luar
que insistia
e prometeu que à noite
devolveria,
com estrelas.

O último amor
voou pelas frestas
de dor e a todas dissolveu
na passagem
como se dissipam
brumas da aurora
ao calor do dia.

O amor último
espalhou belezas impensáveis
devolveu cores à pele seca
e fez o coração brilhar
a cada pulso
abriu um sorriso,
e cantei.

O último amor
– esse que não partirá –
alertou todas as veias
chamou meu coração
por seu nome
soprou cada grão
de areia
dos meus olhos.

O amor último
misturou a terra que sou
ao mar, fundiu as águas
o sal, o doce, é onda, rio
mergulho no insondável
mistério claro
que me navega
sem urgência.

O último amor último
– como o primeiro –
vestiu de fogo e vento
as brasas do tempo.
E não terminará.

:: joan miró | el comenzament del dia, 1968 ::

3 comentários:

  1. Apesar do nome impronunciável da autora (?) o poema é muito bom!

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  2. mas é um nome tão simples: Dascra Ravanssé, filha de uma búlgara com um argelino. um anagrama "perfeito" do meu nome, até o acento preservei. já a humildade, não se preserva o que não se tem. mas deles e delas é o reino dos céus. vc é preciosa pra mim. sua opinião, igualmente. obrigada ♥

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  3. a foto é fake, roubei a face da jovem clara zetkin 😀

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