sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

farpas















um bom bocado de grotesco me caiu da boca.
pantragruélica, me vesti de zebra, de tigre, de onça
e passeei pela savana devastada, me escondi embaixo
da mesa posta e mastiguei mais dois bons bocados de avesso
do sublime. em meio à crise de rinite papagaios assustados
gritavam palavrões para o pirata. o navio partiu sem mim
fiquei no cais escancarado da baía turva.
peixes cantarolavam como em poema de lewis carol
e passeei pelo deserto colorido ao lado das lucys:
uma no céu, outra, cadáver. minha roupa feita de diamantes
somente era pesada, estranhamente não brilhava
e me cortava. esfaqueada por ausências inexplicadas
eu passeei por toda a espera que se possa imaginar
até cansar, até desbotar, até que a falta de senso me fizesse urinar
no mar e transbordar os rios de asfalto que nenhuma estrada
me leva a você. o entendimento se fez raro e momentâneo
apagando, piscando, como uma árvore de lucidez e presentes
caros. mas tudo que era para ser dito o foi. e foi de vez.
embora insuficientemente declaradas as palavras vazaram
de minha boca enquanto um bom bocado de grotesco
sujava a túnica branca de rabelais. os retratos e e-mails
não combinavam. tecnologias macabras nos afastavam
mais e mais. não havia pares. o número um dançava
mastigando êxtase e a noite não nascia calma. os dias
passeavam pela morte afora: eu só queria lhe assustar
com sombras infiltradas na parede. datas erradas no calendário
mitigavam a sede de passado. por que nunca lhe vi?
por que mora longe? por que os papéis rolam soltos na calçada,
anúncios de promoções, itens inúteis?
no supermercado particular de minha alma as gôndolas vazias
e sujas ainda exibem o cartaz com meu preço. e longe de fazer
bonito lanço saliva enquanto mastigo o último pedacinho
de grotesco: para sempre, amor.

Um comentário:

a biblioteca de borges

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