quarta-feira, 13 de setembro de 2023

com razão

água na boca
mão na boca trancada
fechada, pra não dizer, pra pular
pra outro lugar, onde sua voz
só vocaliza, diz tudo sem palavra
e eu vou. não é uma cantada
de quinta categoria
é uma alegria, vai que dá pra distinguir.

só sei que vou atrás
tropeçando como se as unhas crescessem
mais depressa que os cabelos.
não tem nada a ver com você
ou com ele ou com alguma espécie
de desvelo, ou adoração, ou desejo.

é só a música que pode fazer isso
mais nada tem o poder desse delito
que encosta a razão na parede
e faz ela suspirar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

sonhando contra borges

caminhos que se bifurcam
jardim sob o azul
nuvens que o tempo trança
e à menor esperança
são a trilha das mãos
dadas, luz inesperada

meu oráculo é o sol
se pondo na tarde
no milagre da montanha

yin yang
nossos hexagramas
tui tui tui

três vezes alegria
a tarde canta
no passarinho em derredor

um lago de poesia
prosa onde mergulhar
suave como soa em mim
imaginado trovão
imaginária chuva a descansar
o dia que virá, amanhã,

agora ainda suspenso
no céu
da madrugada.

:: pedra do ingá, 7° 19' 30'' sul /  35° 35' 7'' oeste ::
:: marcio lambais | FBmarcio lambais | IG
::

{clique na foto e a veja ampliada}

terça-feira, 11 de julho de 2023

fórmula um


nós temos pressa em não morrer
por isso apertamos as buzinas
antes que o sinal esteja verde
conscientes sobre logo mais
haver outro sinal

temos tanta pressa em não morrer
que
na direção contrária
a vida
em geral
é agora esse pacote de biscoitos
mofado, mofados
e novos biscoitos são imediatamente
produzidos por corpos
que nem aos mofados têm direito

a pressa em não morrer virou arte
a pirâmide escultural, a letra que não se apaga

a pressa em não morrer é memória
patrimônio, coisas feitas para durar
arquitetura brutal
submarinos quânticos

coisas feitas para ficar
para sempre
como se
(o)
sempre
existisse

a pressa em não morrer nos escravizou
nos fez escravizados
do futuro
do inexistente

a pressa em não morrer nos faz morrer
de pronto.

:: velocity of cars and light | giacomo balla, 1913 ::

quinta-feira, 11 de maio de 2023

incêndio

enquanto a vida fervia
distraída, ela,
no fundo da janela
ignorava os cotovelos
machucados, queimava
os pulmões, tragava
o gás do ônibus que passava
os olhos perdidos dentro
da música que tocava
nos neurônios
se encantava, como nada,
com o nada, flutuava, flertando
nuvens, amando a lua,
seu silêncio.

:: third floor, second window | luke spooner ::


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

slowly



 

 

 

 

 

 

 


No fundo do mar

voando como uma arraia

in slow motion

sinto como se estivesse

indo para casa

o tempo todo

já estando em casa

areia e asas

puro conforto.



Peixes passam perto

tudo é entorno

teus braços fortes

teus beijos doces

in slow motion

porque te vejo

planície e montanha

vale e cordilheira

passarinho, águia


é quase tarde

mas a noite é longa

e os dias virão

como não se sabe

como se sabe o sol.

:: spotted eagle ray | john norton, 2008 ::


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

mistura

Meu coração alegre
assovia as canções do morto,
da santa que não era,
do lenhador que sangra
a cada árvore que corta,
da mulher que dá ao rio
vestidos e melodia
em tantas idas e voltas.

Meu coração febril
bate como quem bate a massa
de pão na mesa, um tambor
fundo como a velhice,
livre como versos curtos
que voam de quatro em quatro.

Um duende me acompanha
tocando comprido instrumento
e mais longe que alcança o vento
meus olhos bebem a poeira,
meus pés dançam miragens
sob o açoite da noite, do sol,
descaminhados.

A bebida doce derramada
na carta dez vezes escrita
onze vezes apagada
por meu coração alegre
que não se rende nem fere,
não tem segredos nem teme
o fio dessas meadas
no pulso, nos ossos, nas unhas
que atacam as cordas
da garganta, da guitarra
puxando acordes com sede
derramando mares e serras
verdes calmas que me cercam
e logo se despedem.

:: erke | n j.o. zavalía, 2014 ::