nós temos pressa em não morrer
por isso apertamos as buzinas
antes que o sinal esteja verde
conscientes sobre logo mais
haver outro sinal
temos tanta pressa em não morrer
que
na direção contrária
a vida
em geral
é agora esse pacote de biscoitos
mofado, mofados
e novos biscoitos são imediatamente
produzidos por corpos
que nem aos mofados têm direito
a pressa em não morrer virou arte
a pirâmide escultural, a letra que não se apaga
a pressa em não morrer é memória
patrimônio, coisas feitas para durar
arquitetura brutal
submarinos quânticos
coisas feitas para ficar
para sempre
como se
(o)
sempre
existisse
a pressa em não morrer nos escravizou
nos fez escravizados
do futuro
do inexistente
a pressa em não morrer nos faz morrer
de pronto.
terça-feira, 11 de julho de 2023
fórmula um
quinta-feira, 11 de maio de 2023
incêndio
enquanto a vida fervia
distraída, ela,
no fundo da janela
ignorava os cotovelos
machucados, queimava
os pulmões, tragava
o gás do ônibus que passava
os olhos perdidos dentro
da música que tocava
nos neurônios
se encantava, como nada,
com o nada, flutuava, flertando
nuvens, amando a lua,
seu silêncio.
:: third floor, second window | luke spooner ::
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023
slowly
No fundo do mar
voando como uma arraia
– in slow motion –
sinto como se estivesse
indo para casa
o tempo todo
já estando em casa
areia e asas
puro conforto.
Peixes passam perto
tudo é entorno
teus braços fortes
teus beijos doces
– in slow motion –
porque te vejo
planície e montanha
vale e cordilheira
passarinho, águia
é quase tarde
mas a noite é longa
e os dias virão
como não se sabe
como se sabe o sol.
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
mistura
Meu coração alegre
assovia as canções do morto,
da santa que não era,
do lenhador que sangra
a cada árvore que corta,
da mulher que dá ao rio
vestidos e melodia
em tantas idas e voltas.
Meu coração febril
bate como quem bate a massa
de pão na mesa, um tambor
fundo como a velhice,
livre como versos curtos
que voam de quatro em quatro.
Um duende me acompanha
tocando comprido instrumento
e mais longe que alcança o vento
meus olhos bebem a poeira,
meus pés dançam miragens
sob o açoite da noite, do sol,
descaminhados.
A bebida doce derramada
na carta dez vezes escrita
onze vezes apagada
por meu coração alegre
que não se rende nem fere,
não tem segredos nem teme
o fio dessas meadas
no pulso, nos ossos, nas unhas
que atacam as cordas
da garganta, da guitarra
puxando acordes com sede
derramando mares e serras
verdes calmas que me cercam
e logo se despedem.
:: erke | n j.o. zavalía, 2014 ::
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
ontem
não, eu não curto palavrão, não
não temos nada em comum, sim
quero te encontrar na estrada - é certo -
na parada do último ônibus vermelho
numa londres desvairada, impulso
na escada de incêndio enferrujada
como num filme velho e tolo
ouro não me dá desejo, nem a fama
não, eu não sei o que há nos teus olhos, não
só sinto calafrios me queimando os ossos
um negócio que não cabe em letra
dentro de mim há uma suspeita
mas escapo, deixo a linha reta
não derrapo, sigo certa estrela
insuspeita como é teu brilho escuro
teu neon inscrito em meus muros
não, somos tão desiguais e não,
somos como um só desconforto, sim
que nos habita e nos joga fora
como agora quando rabisco linhas
minhas mãos não tremem, não vacilo
um cordel sem rima, sem estilo
nossas vidas não vão se encontrar:
já se encontram sem hora ou contato
os relógios são apenas artefatos
a arte consome tudo como fogo
cinzas, brasas, madeira de lei roubada
vivemos na floresta escura, encantada
em meio a dores amores sem cura ou norte
sigamos nossos caminhos fáceis
não há ninhos e também não vemos pássaros
apenas o céu cinzento prometendo raios
se eu disser que há de fato um nome
retrato de cor que rasga minha aorta
alguém de costas para a parede assina
remoendo lentamente um real havana
a garrafa cheia de vinho tinto barato
uma mulher de pele rara canta
pronta pra quebrar com as mãos e danças
a matéria dura dos canhões, a bala
continuo dobrando as esquinas
sem cuidado atravessando a ponte
dirigindo a própria vida, a morte
não me engana, sou muito mais forte
que imagina o brutamontes tosco
eu me dobro quando vem o soco
a navalha falha, não sabe encontrar
meu ponto de corte, o meu calcanhar
lido com a brisa que embaraça meu cabelo
peso cada frase, entorto cada verbo
destruindo com incerteza o selo, o segredo
durmo sem fazer esforço quando quero
e nos sonhos pesados concretos escrevo
leio os avessos e os palimpsestos
acordo derretida em um país sem terra
não, eu não desisto, quero o inverno e a primavera
vivo um ritmo que não se aprende logo
sou como uma ventania sobre o lago
como água parada, eu sou um pântano afável
areia movediça quando engole um corpo
cuspo faíscas, querosene, óleo fumegante
não sei fazer mal nem bem nem ouço
o que não quero, eu vou e desmantelo a fonte
com todo cuidado e zelo sigo minha errância
dentro de certos modelos pareço constante
de perto sou fina e gorda e mole e dura, impaciente
subo no mais alto monte, grito suave e minto
menos que se quer, as mentiras esmago de jeito
as verdades trato com mel, lua e açoites
pelas noites vago só no beco estreito
sem medo de nada que pressinto, não,
não fujo dos espelhos, mas não me confundo
vem me encontrar como já fizeste antes
numa nuvem de ópio e diamantes
na música batida e forte dos tambores
ousa arcar com a farsa dos amores
não há nada mais intenso que os rumores
beijos e mais beijos que não serão dados
não se pode acabar o nunca começado
os dados rolam sem rumo no horizonte
o destino é cada passo torto e incerto
a vida não aceita freio ou acelerador
o universo não é um motor à gasolina
tudo ensina, tudo erra, tudo é tentador
sem revólver, sem bala ou agulha
sem escudo, sem pudor, sem gula
me destrua, console, me refaça, indefina
amanhã também não será tarde ou sina
todo dia, noite, madrugada, lusco-fusco
nos pores de sol, na entranha da montanha
no túnel aleatório dos códigos, algoritmos
as portas sempre abertas, as veias, os sorrisos
vem me contar sobre as artimanhas e delírios
sobe no ponto mais alto do edifício e pula
meus braços macios vão garantir que seja doce
ouve o coração, teu coração, o meu e vem.
ontem.
:: the skidi pawnee star chart | field museum of natural history, chicago ::
:: stars and constellations of a pawnee sky map | ralph n. buckstaff, 1927 ::
sexta-feira, 25 de novembro de 2022
casa de peixes
nossa história é em mim
como nenhuma
nada de real há nela
espirais de suspiro e fumo
nosso futuro é alecrim
cresce do não sabido
todo espera e arrepio
completo de nuvens e escuro
nosso agora é difícil
intenso e rubro
sol que despenca, lua que ascende
eterna criadora e criatura
nossos nós são fins
meios que entreteço
incontável algodão de fios
voz que inicia em meus olhos
nossa viagem é jardim
infinita e breve
trem que não descarrilha
porque a alma é o trilho
nosso sonho é sem fim
feito de alguma
água suave e afagos
nave de ramas e lodo
meu amor é assim
como nenhum
pedra no fundo do mar
casa de peixes e musgo.
:: sea fishes | toshi yoshida, 1975 ::
sábado, 29 de outubro de 2022
just
in the dreams you dreamed
glowed high
in the dawn of a love
the morning star
the calm and endless sea
compass of your heart
the wind draws on your face
a look of waiting and light
loose desires
your body float
above the sand
don't leave marks
your steps
everything is path
the music of the waves
repeats non-stop
that your fear is foam
that in the air falls apart
the night is undressed
the sun wakes up the morning
and you find out
that I'm yours
and only.
revisão e correção luxuosíssima de
cris lemos + xanda lemos
obrigada, lindonas!
:: starry night | jean-francois millet, ~1850 ::


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