domingo, 25 de maio de 2025

carta para alguém



Querida Alguém,
Leningrado, 18:02:017

Escrevo esta carta para te dizer que nada direi. Nada do que esperas escutar, porque eu mesma não sei, talvez não haja nada que possa fazer sentido a ser dito. A palavra não alcança ou cura, o que cura ou ajuda a cicatrizar é essa árvore que alcança a janela do hotel e a música boa.

Dessas coisas sinceras e materiais como folhas outonais e estátuas da cidade mais iluminada que a “cidade-luz”, dessas eu posso te dar notícias.

O metrô que me leva para o mais longe de sua vida possível é um deslumbrante museu do passado que dói de tanta riqueza e memórias do outro império.

Alguém no avião que me trouxe usava seu perfume meu preferido, Alguém.

A comida é deliciosa e enquanto engarfo algo penso no quanto sou capaz de escrever te “dizendo tudo enquanto não te digo”.

Roubei as aspas de uma bela canção e essa é toda a confissão possível.

De que serviria dizer algo que preferes não seja sequer imaginado.

Se há um sentimento que descansa agora nesses lençóis de três mil e quinhentos fios, que permaneça encoberto, assim faço teu gosto, Alguém, querida.

Daqui amanhã parto para a volta, e se a noite me engole sem astúcias, apenas cumpre seu papel de mais uma noite esquecida, é que a vida é assim.

Não seja severa consigo. Não querer esta carta, não ter nada em perigo, nem alegrias, se nunca houve uma saudade, se seu coração jamais se alterou diante da minha ausência ou presença, não se culpe, não exijo amor – como exigi-lo? – não peço amor, não quero amor, menos ainda desejo



silêncio.

Então, como não há o que ser dito, algo que mova o inamovível, esta carta é apenas o exercício de tentação, queimação, destinação, arroubo, rascunho.

Uma carta ainda é uma carta, mesmo que não seja levada até seu destino. Mesmo que não seja enviada ou publicada. Mesmo que tenha se esmigalhado no fundo do baú e restem uns pedaços de frase, uma interrogação, um verbo mais escuro no resto de papel.

Espero que seus dias estão bons, mas sabe como muito bons? Pois é. Não mando nos meus desejos. Desejo isso e algo chocalha, chacoalha, uns sininhos, isso, uma corda solta ressona, dorme a lares sol tos.

Do rmindo, si.... lêncio. Reinando nas próprias astúcias a odisseica pene laine navagea, costura, pinta e borda. A gramática ladeira abaixo, e ladeira acima, o precipício das imagens, paisagens, lembranças, memórias. Sem cortes, mas retas que as vinte e cinco mil palavras de molly pela boca do finado. Aquilo tudo é uma cobra, Alguém, te juro.

Com delicadeza,
Cassandra.

:: foto :: hotel

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

com razão

água na boca
mão na boca trancada
fechada, pra não dizer, pra pular
pra outro lugar, onde sua voz
só vocaliza, diz tudo sem palavra
e eu vou. não é uma cantada
de quinta categoria
é uma alegria, vai que dá pra distinguir.

só sei que vou atrás
tropeçando como se as unhas crescessem
mais depressa que os cabelos.
não tem nada a ver com você
ou com ele ou com alguma espécie
de desvelo, ou adoração, ou desejo.

é só a música que pode fazer isso
mais nada tem o poder desse delito
que encosta a razão na parede
e faz ela suspirar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

sonhando contra borges

caminhos que se bifurcam
jardim sob o azul
nuvens que o tempo trança
e à menor esperança
são a trilha das mãos
dadas, luz inesperada

meu oráculo é o sol
se pondo na tarde
no milagre da montanha

yin yang
nossos hexagramas
tui tui tui

três vezes alegria
a tarde canta
no passarinho em derredor

um lago de poesia
prosa onde mergulhar
suave como soa em mim
imaginado trovão
imaginária chuva a descansar
o dia que virá, amanhã,

agora ainda suspenso
no céu
da madrugada.

:: pedra do ingá, 7° 19' 30'' sul /  35° 35' 7'' oeste ::
:: marcio lambais | FBmarcio lambais | IG
::

{clique na foto e a veja ampliada}

terça-feira, 11 de julho de 2023

fórmula um


nós temos pressa em não morrer
por isso apertamos as buzinas
antes que o sinal esteja verde
conscientes sobre logo mais
haver outro sinal

temos tanta pressa em não morrer
que
na direção contrária
a vida
em geral
é agora esse pacote de biscoitos
mofado, mofados
e novos biscoitos são imediatamente
produzidos por corpos
que nem aos mofados têm direito

a pressa em não morrer virou arte
a pirâmide escultural, a letra que não se apaga

a pressa em não morrer é memória
patrimônio, coisas feitas para durar
arquitetura brutal
submarinos quânticos

coisas feitas para ficar
para sempre
como se
(o)
sempre
existisse

a pressa em não morrer nos escravizou
nos fez escravizados
do futuro
do inexistente

a pressa em não morrer nos faz morrer
de pronto.

:: velocity of cars and light | giacomo balla, 1913 ::

quinta-feira, 11 de maio de 2023

incêndio

enquanto a vida fervia
distraída, ela,
no fundo da janela
ignorava os cotovelos
machucados, queimava
os pulmões, tragava
o gás do ônibus que passava
os olhos perdidos dentro
da música que tocava
nos neurônios
se encantava, como nada,
com o nada, flutuava, flertando
nuvens, amando a lua,
seu silêncio.

:: third floor, second window | luke spooner ::


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

slowly



 

 

 

 

 

 

 


No fundo do mar

voando como uma arraia

in slow motion

sinto como se estivesse

indo para casa

o tempo todo

já estando em casa

areia e asas

puro conforto.



Peixes passam perto

tudo é entorno

teus braços fortes

teus beijos doces

in slow motion

porque te vejo

planície e montanha

vale e cordilheira

passarinho, águia


é quase tarde

mas a noite é longa

e os dias virão

como não se sabe

como se sabe o sol.

:: spotted eagle ray | john norton, 2008 ::