
caminhos que se bifurcam
jardim sob o azul
nuvens que o tempo trança
e à menor esperança
são a trilha das mãos
dadas, luz inesperada
meu oráculo é o sol
se pondo na tarde
no milagre da montanha
yin yang
nossos hexagramas
tui tui tui
três vezes alegria
a tarde canta
no passarinho em derredor
um lago de poesia
prosa onde mergulhar
suave como soa em mim
imaginado trovão
imaginária chuva a descansar
o dia que virá, amanhã,
agora ainda suspenso
no céu
da madrugada.
:: pedra do ingá, 7° 19' 30'' sul / 35° 35' 7'' oeste ::
:: marcio lambais | FB / marcio lambais | IG ::
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nós temos pressa em não morrer
por isso apertamos as buzinas
antes que o sinal esteja verde
conscientes sobre logo mais
haver outro sinal
temos tanta pressa em não morrer
que
na direção contrária
a vida
em geral
é agora esse pacote de biscoitos
mofado, mofados
e novos biscoitos são imediatamente
produzidos por corpos
que nem aos mofados têm direito
a pressa em não morrer virou arte
a pirâmide escultural, a letra que não se apaga
a pressa em não morrer é memória
patrimônio, coisas feitas para durar
arquitetura brutal
submarinos quânticos
coisas feitas para ficar
para sempre
como se
(o)
sempre
existisse
a pressa em não morrer nos escravizou
nos fez escravizados
do futuro
do inexistente
a pressa em não morrer nos faz morrer
de pronto.
enquanto a vida fervia
distraída, ela,
no fundo da janela
ignorava os cotovelos
machucados, queimava
os pulmões, tragava
o gás do ônibus que passava
os olhos perdidos dentro
da música que tocava
nos neurônios
se encantava, como nada,
com o nada, flutuava, flertando
nuvens, amando a lua,
seu silêncio.
:: third floor, second window | luke spooner ::
No fundo do mar
voando como uma arraia
– in slow motion –
sinto como se estivesse
indo para casa
o tempo todo
já estando em casa
areia e asas
puro conforto.
Peixes passam perto
tudo é entorno
teus braços fortes
teus beijos doces
– in slow motion –
porque te vejo
planície e montanha
vale e cordilheira
passarinho, águia
é quase tarde
mas a noite é longa
e os dias virão
como não se sabe
como se sabe o sol.
Meu coração alegre
assovia as canções do morto,
da santa que não era,
do lenhador que sangra
a cada árvore que corta,
da mulher que dá ao rio
vestidos e melodia
em tantas idas e voltas.
Meu coração febril
bate como quem bate a massa
de pão na mesa, um tambor
fundo como a velhice,
livre como versos curtos
que voam de quatro em quatro.
Um duende me acompanha
tocando comprido instrumento
e mais longe que alcança o vento
meus olhos bebem a poeira,
meus pés dançam miragens
sob o açoite da noite, do sol,
descaminhados.
A bebida doce derramada
na carta dez vezes escrita
onze vezes apagada
por meu coração alegre
que não se rende nem fere,
não tem segredos nem teme
o fio dessas meadas
no pulso, nos ossos, nas unhas
que atacam as cordas
da garganta, da guitarra
puxando acordes com sede
derramando mares e serras
verdes calmas que me cercam
e logo se despedem.
:: erke | n j.o. zavalía, 2014 ::