quarta-feira, 2 de agosto de 2023

sonhando contra borges

caminhos que se bifurcam
jardim sob o azul
nuvens que o tempo trança
e à menor esperança
são a trilha das mãos
dadas, luz inesperada

meu oráculo é o sol
se pondo na tarde
no milagre da montanha

yin yang
nossos hexagramas
tui tui tui

três vezes alegria
a tarde canta
no passarinho em derredor

um lago de poesia
prosa onde mergulhar
suave como soa em mim
imaginado trovão
imaginária chuva a descansar
o dia que virá, amanhã,

agora ainda suspenso
no céu
da madrugada.

:: pedra do ingá, 7° 19' 30'' sul /  35° 35' 7'' oeste ::
:: marcio lambais | FBmarcio lambais | IG
::

{clique na foto e a veja ampliada}

terça-feira, 11 de julho de 2023

fórmula um


nós temos pressa em não morrer
por isso apertamos as buzinas
antes que o sinal esteja verde
conscientes sobre logo mais
haver outro sinal

temos tanta pressa em não morrer
que
na direção contrária
a vida
em geral
é agora esse pacote de biscoitos
mofado, mofados
e novos biscoitos são imediatamente
produzidos por corpos
que nem aos mofados têm direito

a pressa em não morrer virou arte
a pirâmide escultural, a letra que não se apaga

a pressa em não morrer é memória
patrimônio, coisas feitas para durar
arquitetura brutal
submarinos quânticos

coisas feitas para ficar
para sempre
como se
(o)
sempre
existisse

a pressa em não morrer nos escravizou
nos fez escravizados
do futuro
do inexistente

a pressa em não morrer nos faz morrer
de pronto.

:: velocity of cars and light | giacomo balla, 1913 ::

quinta-feira, 11 de maio de 2023

incêndio

enquanto a vida fervia
distraída, ela,
no fundo da janela
ignorava os cotovelos
machucados, queimava
os pulmões, tragava
o gás do ônibus que passava
os olhos perdidos dentro
da música que tocava
nos neurônios
se encantava, como nada,
com o nada, flutuava, flertando
nuvens, amando a lua,
seu silêncio.

:: third floor, second window | luke spooner ::


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

slowly



 

 

 

 

 

 

 


No fundo do mar

voando como uma arraia

in slow motion

sinto como se estivesse

indo para casa

o tempo todo

já estando em casa

areia e asas

puro conforto.



Peixes passam perto

tudo é entorno

teus braços fortes

teus beijos doces

in slow motion

porque te vejo

planície e montanha

vale e cordilheira

passarinho, águia


é quase tarde

mas a noite é longa

e os dias virão

como não se sabe

como se sabe o sol.

:: spotted eagle ray | john norton, 2008 ::


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

mistura

Meu coração alegre
assovia as canções do morto,
da santa que não era,
do lenhador que sangra
a cada árvore que corta,
da mulher que dá ao rio
vestidos e melodia
em tantas idas e voltas.

Meu coração febril
bate como quem bate a massa
de pão na mesa, um tambor
fundo como a velhice,
livre como versos curtos
que voam de quatro em quatro.

Um duende me acompanha
tocando comprido instrumento
e mais longe que alcança o vento
meus olhos bebem a poeira,
meus pés dançam miragens
sob o açoite da noite, do sol,
descaminhados.

A bebida doce derramada
na carta dez vezes escrita
onze vezes apagada
por meu coração alegre
que não se rende nem fere,
não tem segredos nem teme
o fio dessas meadas
no pulso, nos ossos, nas unhas
que atacam as cordas
da garganta, da guitarra
puxando acordes com sede
derramando mares e serras
verdes calmas que me cercam
e logo se despedem.

:: erke | n j.o. zavalía, 2014 ::

 

 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

ontem




















não, eu não curto palavrão, não

não temos nada em comum, sim

quero te encontrar na estrada - é certo -

na parada do último ônibus vermelho

numa londres desvairada, impulso

na escada de incêndio enferrujada

como num filme velho e tolo

ouro não me dá desejo, nem a fama



não, eu não sei o que há nos teus olhos, não

só sinto calafrios me queimando os ossos

um negócio que não cabe em letra

dentro de mim há uma suspeita

mas escapo, deixo a linha reta

não derrapo, sigo certa estrela

insuspeita como é teu brilho escuro

teu neon inscrito em meus muros



não, somos tão desiguais e não,

somos como um só desconforto, sim

que nos habita e nos joga fora

como agora quando rabisco linhas

minhas mãos não tremem, não vacilo

um cordel sem rima, sem estilo

nossas vidas não vão se encontrar:

já se encontram sem hora ou contato



os relógios são apenas artefatos

a arte consome tudo como fogo

cinzas, brasas, madeira de lei roubada

vivemos na floresta escura, encantada

em meio a dores amores sem cura ou norte

sigamos nossos caminhos fáceis

não há ninhos e também não vemos pássaros

apenas o céu cinzento prometendo raios



se eu disser que há de fato um nome

retrato de cor que rasga minha aorta

alguém de costas para a parede assina

remoendo lentamente um real havana

a garrafa cheia de vinho tinto barato

uma mulher de pele rara canta

pronta pra quebrar com as mãos e danças

a matéria dura dos canhões, a bala



continuo dobrando as esquinas

sem cuidado atravessando a ponte

dirigindo a própria vida, a morte

não me engana, sou muito mais forte

que imagina o brutamontes tosco

eu me dobro quando vem o soco

a navalha falha, não sabe encontrar

meu ponto de corte, o meu calcanhar



lido com a brisa que embaraça meu cabelo

peso cada frase, entorto cada verbo

destruindo com incerteza o selo, o segredo

durmo sem fazer esforço quando quero

e nos sonhos pesados concretos escrevo

leio os avessos e os palimpsestos

acordo derretida em um país sem terra

não, eu não desisto, quero o inverno e a primavera



vivo um ritmo que não se aprende logo

sou como uma ventania sobre o lago

como água parada, eu sou um pântano afável

areia movediça quando engole um corpo

cuspo faíscas, querosene, óleo fumegante

não sei fazer mal nem bem nem ouço

o que não quero, eu vou e desmantelo a fonte

com todo cuidado e zelo sigo minha errância



dentro de certos modelos pareço constante

de perto sou fina e gorda e mole e dura, impaciente

subo no mais alto monte, grito suave e minto

menos que se quer, as mentiras esmago de jeito

as verdades trato com mel, lua e açoites

pelas noites vago só no beco estreito

sem medo de nada que pressinto, não,

não fujo dos espelhos, mas não me confundo



vem me encontrar como já fizeste antes

numa nuvem de ópio e diamantes

na música batida e forte dos tambores

ousa arcar com a farsa dos amores

não há nada mais intenso que os rumores

beijos e mais beijos que não serão dados

não se pode acabar o nunca começado

os dados rolam sem rumo no horizonte



o destino é cada passo torto e incerto

a vida não aceita freio ou acelerador

o universo não é um motor à gasolina

tudo ensina, tudo erra, tudo é tentador

sem revólver, sem bala ou agulha

sem escudo, sem pudor, sem gula

me destrua, console, me refaça, indefina

amanhã também não será tarde ou sina



todo dia, noite, madrugada, lusco-fusco

nos pores de sol, na entranha da montanha

no túnel aleatório dos códigos, algoritmos

as portas sempre abertas, as veias, os sorrisos

vem me contar sobre as artimanhas e delírios

sobe no ponto mais alto do edifício e pula

meus braços macios vão garantir que seja doce

ouve o coração, teu coração, o meu e vem.


ontem.

:: the skidi pawnee star chart | field museum of natural history, chicago ::

:: stars and constellations of a pawnee sky map | ralph n. buckstaff, 1927 ::

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

casa de peixes

























nossa história é em mim

como nenhuma

nada de real há nela

espirais de suspiro e fumo



nosso futuro é alecrim

cresce do não sabido

todo espera e arrepio

completo de nuvens e escuro



nosso agora é difícil

intenso e rubro

sol que despenca, lua que ascende

eterna criadora e criatura



nossos nós são fins

meios que entreteço

incontável algodão de fios

voz que inicia em meus olhos



nossa viagem é jardim

infinita e breve

trem que não descarrilha

porque a alma é o trilho



nosso sonho é sem fim

feito de alguma

água suave e afagos

nave de ramas e lodo



meu amor é assim

como nenhum

pedra no fundo do mar

casa de peixes e musgo.

:: sea fishes | toshi yoshida, 1975 ::